Supergirl: Um Repeteco de Fórmulas em busca de um Norte para DCU
- Daniel Victor
- há 2 dias
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Supergirl (2026) de Craig Gillespie
Por: Daniel Victor

Em entrevista durante a divulgação de Superman (2025), o diretor do longa e co-CEO da DC Estúdios, James Gunn, afirmou que cada projeto de DCU (não mais DCEU) teria sua própria identidade. “É muito importante para mim que cada projeto tenha sua própria marca. Esse filme é muito diferente do filme com classificação R (+18) que estamos fazendo, um filme de terror com o Cara de Barro. É muito diferente do filme do Sargento Rock que estamos desenvolvendo. É muito diferente de Supergirl, que é uma fantasia espacial.”
No entanto, a sensação que Supergirl me causou vai de encontro à fala do chefe da DC nos cinemas. O longa soa como uma cópia da trilogia Guardiões da Galáxia e de Superman (ambos dirigidos por James Gunn), porém com os piores elementos dessas obras. Onde o que deveria ser “único” se revela um repeteco de fórmulas de filmes de sucesso. E isso me faz questionar: qual direção que o DCU quer tomar?
Kara Zor-El/Supergirl (Milly Alcock) comemora seu aniversário de 21 anos viajando pelas galáxias com Krypto. Seu caminho cruza com o da jovem Ruthye Marye Knoll (Eve Ridley), que teve sua família dizimada pelo mercenário Krem (Matthias Schoenaerts). Quando o vilão envenena seu fiel amigo, o Supercão, uma parceria com a órfã se inicia, numa trama de luto, vingança e justiça.
O longa toma como base a HQ Supergirl: Mulher do Amanhã (2021-2022), escrita por Tom King e ilustrada pela brasileira Bilquis Evely. Indicada ao Prêmio Eisner em 2022 e ao Prêmio Hugo em 2023, a obra foi amplamente aclamada pela crítica e se tornou um marco na consolidação da heroína como uma personagem com identidade própria, afastando-a da percepção de ser apenas uma versão feminina do Superman.
Dirigido por Craig Gillespie e com roteiro assinado por Ana Nogueira, Supergirl utiliza a HQ da forma mais rasa possível. Se em Eu, Tonya (2017) o diretor já emulava o estilo de Martin Scorsese, aqui ele copia todas as características de seu “chefe”, James Gunn, recorrendo à estética e ao humor da trilogia Guardiões da Galáxia e a certas batidas narrativas de Superman (2025).
Se o público já está saturado da fórmula que o MCU ajudou a estabelecer para filmes de heróis, chega a ser frustrante que o segundo longa do DCU (a concorrência) apenas repita os mesmos modelos narrativos que, por sinal, Gunn ajudou a construir. Personagens estilizados, humor “espetinho” e estrutura de sequências bebem diretamente de Os Guardiões da Galáxia, mas são utilizados de maneira preguiçosa e conveniente.
Os diálogos são expositivos e tentam se “camuflar”, já que os personagens explicam a trama para aliens ou entre si em momentos em que debatem os seus conflitos. A dupla formada por Kara e Ruthye não tem química, e o único elo entre as duas personagens é o luto que carregam. Dor essa que nossa protagonista carrega, pela destruição do planeta Krypton (lugar onde ela nasceu), em uma série de flashbacks que acabam se tornando mais interessantes do que a trama principal.
A fidelidade visual dos personagens em relação às HQs é inconstante, o que chega a ser um problema, já que longas de heróis costumam sofrer com esse tipo de mudança. Ruthye e o vilão Krem têm alterações significativas, enquanto Supergirl e a grande participação especial de Lobo (Jason Momoa) permanecem bem próximos do material original. Inclusive, ver o ator interpretando alguém que realmente se pareça com ele, fugindo do delírio do Aquaman de Zack Snyder, é uma grande vitória para os fãs.
Contudo, a utilização do antagonista e de Lobo é frustrante. O vilão, que possui um visual punk (bem diferente da HQ), tem motivações rasas. O motivo para matar a família de Ruthye não se sustenta na trama (as armas roubadas, por exemplo, nunca são utilizadas na história), e sua função de mercenário serve apenas para trazer um tom feminista à narrativa, em uma alusão direta a Mad Max: Estrada da Fúria (2015). Lobo, por sua vez, é apresentado como uma figura ameaçadora (um destruidor de mundos), sem nunca mostrar o porquê. Em certo momento, uma de suas aparições chega a ofuscar uma cena de nossa protagonista.
De todos os problemas presentes no longa, o maior, sem dúvida, está na intenção de aproximar e diferenciar Supergirl de Superman. Se no filme de 2025 vemos o herói apanhando o filme inteiro com a intenção de humanizá-lo, com o slogan “O Verdadeiro Punk é ser Gentil.”, na película da heroína ela nunca mostra seu real potencial, pois o roteiro sempre encontra uma forma de impedi-la, já que, se pudesse utilizar todo seu poder, os conflitos seriam facilmente resolvidos.
“Superman enxerga a bondade nas pessoas. Eu vejo a Verdade.” Esse foi o grande slogan utilizado na promoção do longa para distinguir os dois personagens, e funciona até a resolução do conflito. Pois, ao que parece alcançar essa distinção, a forma como nossa protagonista resolve a trama destoa completamente do que ela diz momentos antes do final, que, por sinal, tem cara de cena pós-créditos.
Entretanto, tenho que confessar que a série de problemas que o longa possui seria atenuada por mim em anos anteriores. Apesar de enxergar as fórmulas que regiam os heróis, a saturação do gênero não estava tão acentuada. No momento, a Marvel/Disney tenta resetar seu universo, a fim de 'organizar a casa' para o público que acompanhou a Saga do Infinito e que sente esse desgaste da fórmula, enquanto procura chamar a atenção de novos espectadores, o que veremos em Vingadores: Doutor Destino.
Já a DC/Warner parece correr contra o tempo novamente, já que o DCEU foi um desastre e o DCU de James Gunn é uma incógnita, principalmente se considerarmos que não vemos um norte real para as produções, algo que se acentua com o que será da divisão dos heróis da companhia após a recente venda da Warner para a Paramount Skydance.
Supergirl é um repeteco de fórmulas já consagradas em um filme problemático. Para a continuação e expansão do DCU, mostra que a fala de James Gunn sobre projetos independentes não condiz com a realidade. Uma pena, já que Supergirl: Mulher do Amanhã é um dos grandes acertos da DC no universo das HQs neste século.




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