A Odisseia: O Mito, o Retorno e as Consequências que nos fazem Humanos
- Daniel Victor
- há 1 dia
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A Odisseia (2026) de Christopher Nolan
Por: Daniel Victor

A Odisseia, escrita por Homero (por volta de 750 a.C. a 700 a.C.), é mais do que um dos textos mais importantes da literatura mundial. Sua construção, os personagens, as situações e suas inúmeras interpretações não apenas transcenderam o tempo, mas o retorno de Ulisses tornou-se uma estrutura narrativa para inúmeras histórias em todas as artes. No cinema, Stanley Kubrick adaptou a obra ao utilizar o cosmo em 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), um dos exemplos da universalidade do original.
Christopher Nolan já utilizou o arquétipo narrativo em Interestelar (2014), um longa que mira a grandeza de Kubrick e atinge o mediano. Após vencer o Oscar pelo regular Oppenheimer (2023), o diretor escolhe beber diretamente na fonte de Homero e criar seu projeto mais audacioso. A Odisseia é o longa de maior escala em sua filmografia. Onde o mito, o retorno e, principalmente, as consequências trazem o texto grego milenar para discutir o que nos fazem humanos.
Acompanhamos Ulisses/Odisseu (Matt Damon) em seu retorno ao lar após a vitória na Guerra de Troia. Por anos, sua esposa Penélope (Anne Hathaway) o aguarda, enquanto diversos pretendentes buscam assumir o reino de Ítaca durante a ausência de seu rei. Testemunhamos uma jornada épica, na qual o herói precisa enfrentar deuses, criaturas míticas e, principalmente, as consequências de seus atos.
A direção e o roteiro ficam nas mãos de Christopher Nolan, que consegue equilibrar o texto original e sua visão criativa. No longa, a tragédia se sobrepõe às glórias. Odisseu é um homem inteligente, honesto e corajoso. Porém, o grande êxito de invadir Troia e vencer a guerra torna-se a fagulha que impactará todos os personagens da trama.
Condensar o complexo texto de Homero, com seus inúmeros locais, personagens e um período de 40 anos, é uma tarefa árdua. A estrutura não linear, característica da filmografia do diretor, torna-se um trunfo em benefício do longa. Nolan apresenta o mito de Odisseu, vencedor da Guerra de Troia, agora desaparecido. Enquanto mescla passado e presente, transforma o retorno e toda a construção mítica, por vezes, na perspectiva das lembranças do protagonista.
A montagem de Jennifer Lame constrói uma narrativa que tem a intenção de situar o espectador. Isso diferencia o longa de outras obras de Nolan, como A Origem (2010) e Tenet (2020), cuja intenção é desorientar o público. Os figurinos de Ellen Mirojnick e a direção de arte de Samantha Englender e Andrew Palmer são críveis e funcionais, em nenhum momento quebrando a imersão do espectador. Os deslizes, porém, estão, por vezes, na dificuldade de transmitir a sensação de desgaste provocado pela passagem do tempo.
A fotografia de Hoyte van Hoytema, os efeitos visuais do estúdio DNEG, liderados por Andrew Jackson, e a trilha sonora de Ludwig Göransson potencializam o caráter épico das inúmeras cenas do longa. A opção de Nolan por rodar todo o filme em IMAX mostra a escala que a produção consegue alcançar.
Sinto-me um felizardo por ter assistido à projeção no formato em que o filme foi concebido. No entanto, sei que a maior parte do público mundial não terá essa oportunidade, devido ao número limitado de salas capazes de exibi-lo em IMAX. Isso me faz imaginar que certas restrições do formato possam ter afetado o longa, já que alguns planos apresentam "cortes secos". Imagino que a limitação na realização de takes para cobertura possa explicar essa percepção.
Nolan utiliza a escala épica com cadência para desenvolver sua trama. O primeiro ato é dedicado a apresentar Odisseu e sua personalidade sob o ponto de vista de outros personagens. Conhecemos o protagonista pela dor de sua esposa, Penélope, que preserva seu matrimônio e protege o trono de Ítaca; pelo pastor Eumeu (John Leguizamo), amigo de Ulisses desde a infância; e, principalmente, por seu filho Telêmaco (Tom Holland), que, mesmo sem ter conhecido o pai, mantém a fé de que ele ainda esteja vivo.
Quando o herói finalmente entra em cena, vemos que está em uma ilha com Calypso (Charlize Theron), que utiliza flores de lótus para atenuar os traumas de Odisseu, motivada por sua paixão pelo herói. Contar a história por meio de lembranças permite a Nolan utilizar a narrativa não linear, característica de sua filmografia, para organizar o complexo poema de Homero e construir sua trama, sua mensagem e, ao mesmo tempo, não confundir o espectador.
A escolha pelas lembranças e outras mudanças em relação ao texto original funciona muito bem em dois pontos-chaves da narrativa: o mito e o que nos faz humanos. No primeiro, ao contar histórias com criaturas, deuses e grandes passagens de tempo, Nolan não elimina o teor fantástico, mas cria uma camada em que o místico pode ser interpretado de diferentes formas, tanto pelos personagens quanto pelo público.
Ao relatar seu retorno enquanto tenta reconstruir a própria memória e após permanecer desaparecido por anos, a figura de Odisseu torna-se um mito dentro de sua própria história. O Ciclope, as Sereias, o encontro com Circe (em uma atuação memorável de Samantha Morton, que envolve elementos de body horror), a ida ao Submundo e a fúria de Poseidon e Zeus, que recaem sobre o protagonista e sua tripulação, mantêm o caráter fantasioso da narrativa. Por serem apresentados por meio de suas lembranças, porém, também podem ser interpretados como a forma pela qual o herói recorda sua própria jornada.
A vitória na Guerra de Troia, que desencadeia o extermínio da cidade, marca o início da tragédia pessoal de Odisseu e dos demais personagens. Nolan preserva as características do protagonista concebido por Homero, mas o transforma em um herói obrigado a lidar com as consequências de seus próprios atos. Atena (Zendaya), além de divindade, funciona como a própria consciência de Ulisses. Ao conceber o Cavalo de Troia como um presente oferecido aos troianos em nome da deusa, Odisseu transforma sua astúcia na fagulha que desencadeia toda a tragédia
Em uma cena, em vez de vermos uma moradora de Troia (interpretada por Zendaya) ser decapitada, Nolan mostra a cabeça de uma estátua de Atena tombando no chão. Em seguida, um match cut reforça a culpa de Odisseu ao associar essa imagem ao brasão de Atena, recebido de Penélope como proteção, sugerindo que o rosto da mulher morta permanece gravado no inconsciente do herói.
O retorno de Ulisses, marcado pelas provações até alcançar seu lar, revela um homem que desencadeou tragédias ainda maiores e que, diante das consequências de seus atos, transforma sua própria visão sobre o significado da vitória. Odisseu faz um paralelo com a culpa de Oppenheimer, mas, ao contrário do cientista, vive e convive com ela em uma jornada que não busca condená-lo em um tribunal, e sim compreender a ambiguidade humana. Assim, A Odisseia vai além da história de um pai que luta para voltar para casa. Diferentemente de Interestelar, em que o reencontro com a filha é tomado do espectador, já que o interesse romântico é considerado mais importante do que aquilo que levou o protagonista até ali.
No terceiro ato, Odisseu retorna a Ítaca e enfrenta aqueles que, há anos, disputam seu trono. A vitória no desafio proposto por Penélope e o confronto final com Antínoo (Robert Pattinson), que também precisa lidar com as consequências de seus atos, não transformam a jornada do protagonista em uma busca por glória ou redenção. Pelo contrário, Nolan a conduz como um aprendizado de que o ser humano precisa enfrentar as consequências de suas escolhas e decidir o que fazer diante delas.
A Odisseia mostra que o talento de Christopher Nolan é palpável e que adaptar uma obra dessa grandiosidade dialoga naturalmente com a ambição que o diretor busca imprimir em todos os seus projetos. O mito do épico retorno de Odisseu ao seu lar ganha um novo olhar: o que fazemos com as consequências dos nossos atos é, afinal, o que nos faz humanos.




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