Coyote vs. Acme: Quando a ironia da arte se encontra com a vida
- Daniel Victor
- há 29 minutos
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Coyote vs. Acme (2026) de Dave Green
Por: Daniel Victor

A premissa de Coyote vs. Acme nasceu de um artigo escrito por Ian Frazier na The New Yorker, na década de 90, onde o personagem clássico do Looney Tunes processava a empresa que fornecia as ferramentas que sempre davam errado. Chega a ser irônico saber que o longa não seria lançado, pois, segundo David Zaslav, CEO da Warner Bros, preferia tomar o prejuízo (já que o filme está finalizado) a lançar a obra nos cinemas.
Chega a ser incrível pensar que a história do protagonista é uma luta contra uma megacorporação fictícia, e, no mundo real, inúmeras pessoas lutaram contra uma megaempresa para que o longa chegasse ao cinema. Essa ironia entre arte e vida potencializa a obra, que, além de ser um grande filme, é uma homenagem à história da animação, da Warner e da resiliência.
Acompanhamos Wile E. Coyote que, após décadas tentando pegar o Papa-Léguas, resolve processar a ACME Corporation. Junto ao advogado Kevin Avery (Will Forte), nosso protagonista se envolve nas histórias de conspiração que envolvem a megaempresa, enquanto luta por justiça nos tribunais.
A direção de Dave Green é extremamente competente em conduzir uma narrativa que mescla live-action e animação. No universo diegético, os personagens animados e reais convivem em harmonia. O campo lúdico dos desenhos soa natural no longa, e os momentos absurdos são abraçados.
Há um cuidado na construção das ações dos elementos animados na realidade. A física dos objetos, o design sonoro e os efeitos especiais são integrados de forma perfeita. Nos momentos em que a animação puxa para o irreal, o longa os utiliza como uma piada ou uma homenagem, como, por exemplo, quando uma dinamite explode e não causa nenhum dano, ou quando um trem sai de um buraco pintado na parede (clássicas cenas do universo Looney Tunes).
O roteiro de Samy Burch (com créditos da história para James Gunn e Jeremy Slater) mescla um drama de tribunal, uma história de conspiração e homenageia a história da animação da Warner Bros. Mesmo que já tenhamos visto essa estrutura em longas como o clássico Uma Cilada para Roger Rabbit (1988) e o mais recente Tico e Teco: Defensores da Lei (2022), o filme ganha força justamente pela ironia da premissa original.
Assim como Coyote luta nos tribunais por justiça contra a megacorporação Acme, diversos profissionais lutaram contra a Warner Bros. para que o longa não fosse arquivado. Isso é reforçado pelo personagem de Kevin, o advogado do protagonista, que não acredita em seu próprio potencial e sempre assina acordos ao invés de entrar na causa de seus clientes, por medo das grandes empresas.
No longa, a Acme é representada na corte por Buddy Crane (John Cena, em mais um ótimo personagem cômico) e comandada por Frangolino. Essa escolha por uma figura secundária do universo Looney Tunes e com as aparições especiais de vários outros (alguns ícones e outros menores) mostra como o projeto conhece bastante da história da animação da Warner.
Se não bastasse a ironia de um personagem fictício e inúmeras pessoas lutarem contra megacorporações em busca de reconhecimento, é importante lembrar que o CEO da Warner, David Zaslav, engavetou diversos projetos da companhia, como Batgirl, pois também seria um prejuízo, mas deu luz verde para The Flash (2023), pois, segundo ele, seria o melhor filme de herói desde Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008).
Uma clássica demonstração de como acionistas que preferem adivinhar o que será sucesso, enquanto silenciam artistas e profissionais que dedicam suas vidas a criar universos com paixão. Mesmo que o crédito da história inclua James Gunn, já é de conhecimento público sua interferência no resultado final de Supergirl (2026), que mudou a visão do diretor Craig Gillespie e já colocou em xeque toda a credibilidade do DCU.
Coyote vs. Acme é uma representação da ironia que a arte e a vida podem trazer à tona. Os esforços para seu lançamento valeram a pena e demonstram como a visão de artistas é, por vezes, maior do que a das grandes empresas que, em busca do lucro, acabam sabotando o próprio sucesso.




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