O Fim da Rua: O Fim da Rua: Dinossauros e o desconhecido em nome de uma diversão a qualquer custo
- Daniel Victor
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O Fim da Rua (2026) de David Robert Mitchell
Por: Daniel Victor

Ao sair da cabine de imprensa de O Fim da Rua minha sensação foi: “Estamos tão carentes de títulos que fujam um pouco do senso comum, que não duvido que esse longa possa ser um sucesso.” Levando em consideração que David Robert Mitchell (do excelente Corrente do Mal, 2014), que dirige e roteiriza, e J.J. Abrams como um dos produtores (voltarei a esse nome), eu entendo os motivos que infelizmente me fizeram não apreciar o projeto.
Pois estamos diante de uma trama que usa o desconhecido e utiliza ficção científica somada a dinossauros para prender o espectador. Porém, com uma direção conduzida a esmo, um roteiro desleixado e clichês risíveis, a sensação de diversão é diluída em um longa inócuo.
Acompanhamos o pacato e feliz bairro Oak Street (The End of Oak Street, nome original), em meados dos anos 80, pela perspectiva do casal Denise (Anne Hathaway) e Greg (Ewan McGregor) e seus filhos Audrey (Maisy Stella) e Brian (Christian Convery). Após luzes estranhas e uma forte tempestade atingir o vilarejo, o local é transportado sem explicação para um lugar onde dinossauros existem e convivem, cabendo à família Platt se unir em busca de sobrevivência e escapar de toda essa situação.
Apesar de criar uma trama descompromissada, com o claro objetivo de colocar personagens diante de dinossauros e lutando por suas vidas, toda a narrativa é um monte de clichês já utilizados à exaustão, como, por exemplo, a clara influência da série Stranger Things. Um pacato bairro que tem sua vida mudada pelo desconhecido soa mais como um artifício de: “Viemos aqui para brincar com o inexplicável. Apenas aceite e aproveite, e não faça perguntas.”
Apesar de o longa ser de David Robert Mitchell, ele parece muito mais uma obra de J.J. Abrams, devido a inúmeras obras do autor que utilizam o desconhecido, levantam inúmeras perguntas e não explicam nada. Extraterrestres, dinossauros, portais dimensionais... Não importa como tudo isso se une, apenas aproveite o nonsense.
Os protagonistas são caricaturas puras: Denise e Greg são um casal à beira do colapso; Audrey é a filha “outsider” que vive nos telhados e gosta do espaço e de Carl Sagan; Brian parece ser um garoto de 8 anos, mas é vivido por um ator bem mais velho. Quando o inexplicável acontece, tudo vira pretexto para frases como “nossa família sempre estará unida”, como em um comercial de TV.
A forma como o bairro é apresentado também é caricata: um vizinho que vive falando “não invada minha propriedade”; uma senhora que é amiga de Denise, mas que na trama vai servir para dar à protagonista um objeto; um irmão em busca de vingança pelo que Brian fez (irei voltar nesse tópico) e Jeannette (Jordan Alexa Davis), a nova garota do bairro (outro ponto a retornar), que acende o coração dos garotos. A maneira como cada personagem é apresentado e desenvolvido é um desastre, igual a ter que conviver com dinossauros.
Até agora foquei em elementos da trama (roteiro), e quanto à direção? Posso dizer que é igualmente desleixada. David Robert Mitchell cria alguns planos sem propósito nenhum. Em uma cena de diálogo, ele se utiliza do split screen, ou tela dividida (onde o rosto de um personagem e o fundo estão em foco), sem nenhum propósito narrativo. O que é muito diferente da utilização característica da técnica por Brian De Palma ou por Kléber Mendonça Filho, por exemplo.
Toda a construção do terror e do desconhecido é destruída por momentos cômicos que não deveriam ter graça, pois, em diversas cenas, ao invés de rirmos com o filme, estamos rindo do filme. Algumas facilitações narrativas, como a escopeta que Denise consegue e a bibliotecária do bairro saber muito de pré-história, chegam até a ser aceitáveis
Porém, o embate de Brian com o irmão que busca vingança no meio do conflito; Jeannette entregar a família e passar a ter uma “tensão amorosa” com Audrey, mas, no momento de apuros, ser a primeira a abandonar a todos; principalmente a foto polaroid que o casal de protagonistas tira diante de dinossauros, em um “momento íntimo”, que tem o intuito de selar a “união familiar”, dentre outras inúmeras cenas, me fizeram rir do longa pela completa falta de noção.
"Mas o longa é descompromissado mesmo. O intuito é a diversão. E, convenhamos, é muito melhor do que Hollywood tem apresentado ultimamente." Entendo que o filme não é despretensioso, e que almeja apenas entreter, o que não justifica o desleixo narrativo e de direção em sua construção e condução. Se a obra consegue ser mais divertida que a franquia Jurassic World, por exemplo, isso diz muito mais sobre o que fizeram com o que Steven Spielberg criou do que sobre os méritos dessa película.
O Fim da Rua é apenas um longa que utiliza do artifício do desconhecido e do inexplicável para criar uma trama com dinossauros boba e nonsense. Talvez agrade a muitos pela carência de produções que fujam do óbvio. Porém, prefiro me divertir com algo bem feito do que com uma produção completamente esquecível.




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