Papaya: O sonho, a crítica social e a licença poética
Papaya (2025/2026) de Priscilla Kellen
Por: Daniel Victor

Ao longo da projeção, fiquei impressionado com toda a beleza da animação Papaya, primeiro longa de Priscilla Kellen, que teve trajetória internacional e nacional em grandes festivais.
Com a premissa que começa com um sonho, o filme logo se torna uma forte crítica social. Para solucionar e ligar esses dois pontos, a diretora toma liberdades poéticas que, por mais bonitas que sejam, não me agradaram tanto.
Acompanhamos uma semente de papaya que tem o sonho de voar. Seu objetivo fará com que a protagonista passe por diversas situações e locais. E, nessa trajetória, surge uma forte crítica social, enquanto ela tenta realizar seu grande desejo.
A direção de Priscilla Kellen e o roteiro, co-escrito por ela e Patricia Oriolo, criam uma narrativa linda e de fácil entendimento, apesar da curta duração, misturando animação bidimensional a uma paleta visual inspirada em grafismos latino-americanos e nas obras "paper-cutout" do pintor francês Henri Matisse, com cores vibrantes, traços simples e figuras geométricas.
Apesar de ser um longa sem falas, a trilha sonora de Talita Del Collado conduz a narrativa entre a leveza do começo, a tensão na parte da crítica social e a esperança da licença poética que resolve o conflito.
Esses elementos visuais, sonoros e narrativos remetem ao longa O Menino e o Mundo (2013), dirigido por Alê Abreu, um dos nomes por trás da produção de Papaya. No entanto, comparando as duas produções, o equilíbrio narrativo entre conflito e mensagem é o que diferencia os dois longas.
Papaya começa com a inocência de um simples sonho. Acompanhamos as tentativas da protagonista de voar. Essas cenas são belíssimas e cheias de carisma. Com o decorrer da história, nos afastamos da natureza e vamos para a cidade, e logo vemos o contraste.
Natureza vs. Cidade. Sonho vs. Crítica Social. O sonho de voar passa para uma crítica social de como os seres humanos tratam a natureza de forma irresponsável, descartável e voltada para o lucro. Por mais que essa transição seja bem conduzida no longa, atrelar esses pontos entra em conflito no terceiro ato.
"Para conciliar a mensagem de esperança com a natureza vencendo a luta contra o homem, a narrativa tem que escolher entre sonho e crítica social, e precisa de uma licença poética para somar os dois pontos. Por mais que exista beleza nas imagens, isso empobrece a história. E, em comparação com O Menino e o Mundo, Papaya carece da boa vontade do espectador para aceitar sua proposta lírica."
Papaya é uma bela animação carismática. Sonho e crítica social surgem, mas são resolvidos via licença poética, que exige entrega do espectador. Como longa de estreia de Priscilla Kellen, o saldo é positivo. Espero, no futuro, assistir a mais filmes com seu nome.




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