O Bosque Selvagem: Um stop motion exuberante em uma trama que demora para se entrelaçar
O Bosque Selvagem (2026) de Travis Knight
Por: Daniel Victor

O Laika Studio é sinônimo de máxima qualidade na animação em stop motion e serve como resistência diante dos demais estúdios que aderiram à animação computadorizada e que, cada vez mais, utilizam inteligências artificiais em seus processos.
Em seu novo longa, O Bosque Selvagem, a Laika eleva o nível de sua animação a outro patamar. Contudo, a narrativa se ramifica em múltiplos eixos dramáticos que demoram a se entrelaçar, fazendo com que o filme ocasionalmente pareça disperso.
Adaptação do livro homônimo de Colin Meloy, com ilustrações de Carson Ellis, o filme acompanha Prue McKeel, uma garota de 13 anos que vê seu irmão caçula ser sequestrado por um bando de corvos. Determinada a resgatá-lo, ela adentra uma floresta na qual ninguém deveria entrar. Ao lado de seu colega de classe, Curtis, nossa protagonista embarca por um bosque repleto de animais falantes, magia e inúmeros segredos.
Em termos técnico-artísticos, o longa é um deleite. A Laika se supera e cria uma animação em stop motion exuberante. Cores, texturas, movimentos e, principalmente, a sensação de escala atingem um patamar que poucas animações do gênero conseguiram alcançar.
Dirigido por Travis Knight, cada frame é pensado nos mínimos detalhes. Uma técnica específica foi desenvolvida para emular a respiração de cada personagem. A sensação de escala é impressionante, e há cenas tão grandiosas que fico imaginando o nível de dificuldade envolvido em sua animação. A sequência final, que culmina em uma grande batalha, chega ser inacreditável pelo patamar de sofisticação visual que o longa alcança.
Outro elemento interessante é que o estúdio não tem receio de contar uma história infantojuvenil permeada por elementos sombrios. Diferentemente da Disney e mais próximo da tradição do Studio Ghibli, a Laika não evita momentos mais pesados nesse longa, mantendo características presentes em outras produções de obras anteriores.
Narrativamente, o longa se divide entre duas perspectivas. Ora acompanhamos Prue, ora Curtis (embora a garota permaneça como a protagonista da história). É por meio desses dois personagens que somos apresentados ao universo mágico. Essa escolha de dividir a condução da narrativa, comum em diversas obras do gênero, infelizmente acaba tornando a progressão dramática um tanto truncada.
Pois, embora cada novo segmento seja devidamente apresentado, a união dos diferentes núcleos narrativos, por vezes, demora a acontecer. A narrativa entra em um constante movimento de avanço e recuo que compromete sua fluidez e enfraquece o ritmo da trama.
Em 2 horas e 10 minutos de projeção, são muitas informações e muitos núcleos para administrar. Embora todos eventualmente se entrelacem, por vezes há uma demora excessiva nessa convergência. O povo da floresta, por exemplo, que possui ligação com a grande árvore ancestral, é citado no início do longa, mas só ganha relevância próximo à batalha final. O mesmo acontece com o prefeito e a burguesia do bosque (que representam a burocracia), apresentados em determinado momento e praticamente esquecidos ao longo de boa parte da narrativa.
No entanto, é bom ver que o longa não cai em certas convenções características desse tipo de narrativa. Prue e Curtis não se tornam um casal. Da mesma forma, alguns personagens não são agraciados com uma redenção após suas escolhas e ações.
O Bosque Selvagem é um deleite visual e um grande marco para o stop motion. Apesar de uma narrativa que demora a conciliar todos os seus núcleos, há uma coesão que transforma o longa em uma grande experiência.




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