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Digger: A sátira, a metanarrativa e a megalomania

Foto do escritor: Daniel Victor
Daniel Victor
há 9 minutos
3 min de leitura

Digger (2026) de Alejandro G. Iñárritu

Por: Daniel Victor

Ao término de Digger, novo longa de Alejandro G. Iñárritu, logo pensei: "Esse filme vai ser divisivo. Ame ou odeie". No entanto, acho que me encontro no meio-termo da minha própria percepção.


Enquanto sátira ao poder de um grande bilionário e ao governo dos EUA, que negligenciam os impactos que eles próprios promovem no mundo, o longa funcionou para mim. Porém, quando o filme introduz uma metanarrativa, da qual infelizmente não irei me aprofundar por completo a fim de preservar a experiência do leitor, a megalomania da obra passa dos personagens para a própria narrativa de uma maneira um tanto presunçosa.


Acompanhamos Digger Rockwell (Tom Cruise), um excêntrico bilionário responsável por uma catástrofe ambiental de proporções mundiais. Diante do conflito, ele se apresenta como o salvador da humanidade. No entanto, tudo não passa de um artifício para uma grande sátira que envolve tanto o teatro quanto a própria narrativa.


Roteirizado por Iñárritu e mais quatro colaboradores, o longa trata-se de uma sátira ao poder. Digger e os demais homens em posições de poder são figuras extremamente caricatas e exageradas: negacionistas, tementes a Deus e que fazem pouco caso daqueles que tentam alertá-los sobre como suas atitudes impactam o mundo. É uma clara alusão à extrema direita dos EUA e de outras partes do mundo.


É ótimo ver Tom Cruise em um papel diferente do habitual "herói". Por mais que acompanhemos Digger e os demais poderosos, o protagonismo está nas mãos daqueles que fazem mal ao mundo. Enquanto isso, a ciência, representada em grande parte pelo cientista Ganesh (Riz Ahmed), é tratada como pária. No entanto, o longa ri dos verdadeiros "vilões" e utiliza o absurdo como forma de crítica.


Por vezes, o absurdo me lembrou a filmografia de Yorgos Lanthimos, embora Iñárritu esbanja grandiosidade e o estranho de outra forma. A fotografia de Emmanuel Lubezki tem um tom mais lavado e prioriza os enquadramentos. Já a trilha sonora de Cosmo Sheldrake utiliza elementos da música clássica com certas distorções. Tudo coopera para um tom de grandiosidade interna e de riqueza, enquanto vemos o mundo exterior em completo caos.


A cena mais poderosa é quando Digger assume perante o mundo que é culpado por toda a catástrofe, mas pergunta: "Vocês viveriam sem o meu petróleo? Sem todas as tecnologias que impactam o meio ambiente? Vocês apontam o dedo, porém todos dependem dos meus sacrifícios". É uma visão megalomaníaca, mas potente tanto para quem ouve o seu discurso quanto para o espectador.


No entanto, toda a grandiloquência é atenuada quando sabemos que estamos participando de um teatro (em sentido literal e metafórico). Essa camada que o diretor constrói, de um filme dentro de uma farsa, poderia fortalecer a narrativa, mas é justamente ela que acaba gerando uma dissonância com o espectador.


Transformar a narrativa pelo prisma do teatro torna a mensagem redundante: "Tudo não passa de uma sátira, entenderam?". Ao fazer isso, o filme inocenta parte dos absurdos que vemos em tela por meio de seus personagens e traz à camada da realidade um tom mais sóbrio, ainda que sombrio. Com isso, enfraquece a potência de sua própria crítica.


Digger é um longa que acerta na sátira, mas, ao introduzir a metanarrativa à história, traz uma camada que divide o filme em dois. De um lado, temos a megalomania de poderosos que se acham acima do bem e do mal. Do outro, uma obra que, na busca pela própria grandiosidade, falha ao atenuar a força de sua crítica.

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Para Amantes de Cinema

Persona Crítica. Propriedade Daniel Victor. Crítica de Cinema

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