Antártida: Boa premissa diluída em resoluções problemáticas
Antártida (2026) de Bruno Safadi
Por: Daniel Victor

Apesar de não ter agradado tanto parte da crítica em sua estreia no 54º Festival de Gramado, fui assistir a Antártida sem nenhum tipo de preconceito, apenas sabendo de sua premissa. Mesmo com uma sinopse (por mais que não fosse inovadora) interessante, a cada novo passo do longa, seus problemas ficavam mais evidentes.
Na estação brasileira na Antártida, diversos cientistas e militares se preparam para enfrentar um inverno rigoroso e bem afastado do resto do mundo. Após uma noite de confraternização, Inês (Marina Ruy Barbosa) é violentada sexualmente. Diante de tal crime e do isolamento, os conflitos se acentuam no local, cabendo à subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão) e à médica Marina (Leandra Leal) unir forças e tentar lidar com a situação.
Dirigido por Bruno Safadi, com roteiro assinado por Cláudia Jouvin e Dennison Ramalho, o filme utiliza o completo isolamento e o crime para criar seu conflito, que no começo é efetivo devido à relação tóxica de Marina e seu marido, o Capitão Vicente (Lázaro Ramos), e às pequenas intrigas entre os demais personagens.
A estação e a localidade cercadas por neve são muito críveis. A fotografia de Mauro Pinheiro Jr. utiliza as cores amarela, vermelha e, principalmente, a verde, que é utilizada para representar o perigo. No entanto, o desenvolvimento da trama não acompanha a qualidade dos demais elementos fílmicos.
Conforme acompanhamos a história, podemos ver como o longa não sabe lidar com temas sensíveis. Depois de ocorrido o crime, o longa atenua o tom de mulheres x homens de forma desastrosa. Inês se torna um estereótipo de mulher neurótica, que chega a cortar os cabelos em um momento de fúria. A investigação só começa no terceiro ato, pois, segundo o próprio filme, alguns temas não podem ser tocados.
Até começar a investigação (que poderia e deveria ter começado bem antes), acompanhamos o drama do Comandante Barros (Antonio Calloni), cujo conflito também é lidado sem nenhum tato quando uma tragédia acontece. Todas as questões da obra caem nos ombros de Elisabeth, que tem de lidar com o machismo e ainda com problemas do passado que "casualmente" batem com o conflito principal.
É durante os flashbacks, tentando achar o culpado pelo crime, que finalmente conhecemos os outros personagens. No terceiro ato, com uma montagem gradativa (para que o espectador não se perca), descobrimos o responsável. No entanto, nos vinte minutos finais, o longa vai para diversos caminhos, onde tantos fatos acontecem, que o conflito principal é completamente diluído.
Antártida tem uma boa premissa, mas com resoluções problemáticas. Apesar do elenco estelar e do ótimo trabalho de ambientação, sua trama trabalha seus conflitos de forma desleixada.




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