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Persona: As máscaras e os papéis do feminino, o social, a psique e do cinema

Foto do escritor: Daniel Victor
Daniel Victor
há 4 minutos
5 min de leitura

Persona (1966) de Ingmar Bergman

Por: Daniel Victor

Com “Spoilers”


 dois pontos que gostaria de destacar ao leitor, pois são elementos cntrais desta crítica: o primeiro trata dos “Spoilers”, que estão entre aspas devido às interpretações e análises que irei apresentar diretamente a partir do longa. Entretanto, não tenho a intenção de explicar ou desvendar a obra. O segundo é que este texto é uma celebração aos 60 anos do clássico de Ingmar Bergman e, por sinal, traz consigo o conceito que está por trás do nome do meu projeto com cinema e crítica cinematográfica.


Persona, além de uma obra-prima, é um dos meus filmes favoritos da vida. Escrever sobre um filme tão querido e que influenciou o cinema ao longo dessas seis décadas é uma tarefa que exige uma responsabilidade à altura. Afinal, o clássico de Bergman trata-se de uma narrativa experimental, na qual as máscaras e os papéis do feminino, do social, da psique e do cinema são constantemente construídos e reconstruídos.


Acompanhamos Elisabeth Vogler (Liv Ullmann), uma famosa atriz que, durante uma apresentação da peça Electra, de Sófocles, fica inexplicavelmente em silêncio. Alma (Bibi Andersson) é a enfermeira encarregada de ajudá-la em sua recuperação. Refugiadas em uma casa de campo, as duas mulheres passam a desenvolver uma relação intimista, na qual os limites de suas identidades começam a se entrelaçar.


Apesar de Bergman criar um longa enigmático, que não exige respostas definitivas para as questões que apresenta, alguns pontos podem ser interpretados a partir dos próprios signos da obra. Persona era como se chamavam as máscaras utilizadas no teatro latino. O termo também foi utilizado por Jung para representar os papéis que assumimos em sociedade, funcionando como uma espécie de máscara que oculta e, ao mesmo tempo, revela aspectos do nosso eu.


Em Persona, porém, essa relação não parece tão simples: talvez não exista uma identidade essencial por trás da máscara esperando para ser revelada, mas diferentes papéis que se constroem, se sobrepõem e se confundem na relação com o outro.


Um ponto crucial que reforça essa sobreposição é a dualidade que as protagonistas estabelecem uma com a outra. Afirmar que uma é uma persona ou uma versão da outra seria tentar desvendar justamente aquilo que torna o longa único. No entanto, quanto mais Elisabeth e Alma se aproximam, mais suas identidades se confundem.


A fotografia de Sven Nykvist sempre enquadra as duas personagens com o mesmo plano (quando uma está em close-ups, a outra também está) ou repete o movimento de câmera para ambas, mesmo em circunstâncias diferentes. Os figurinos preto e branco, por sua vez, ora são utilizados para gerar proximidade entre as duas, quando vestem a mesma cor, ora para estabelecer uma distinção entre elas.


O plano mais importante e icônico do longa é justamente aquele que ficou conhecido como Plano Persona (Persona Shot), no qual vemos, ao mesmo tempo, a metade do rosto de uma das personagens, enquanto a outra tem seu rosto parcialmente ocultado pela composição. Tal enquadramento evidencia a dualidade e a sobreposição entre as personagens. O plano se tornou uma referência recorrente no cinema e em outras obras audiovisuais, sendo reproduzido tanto como homenagem quanto ressignificado para diferentes finalidades.

Sabemos que Elisabeth resolveu permanecer em silêncio e, assim, passou a ser cuidada por Alma. Depois de confessar seu segredo, a enfermeira descobre, por meio de uma carta, que a atriz está analisando aquilo que ela revela. Essa descoberta provoca uma mudança na perspectiva: de uma figura aparentemente doente e dependente dos cuidados, ela passa a ocupar também a posição de observadora daquela que deveria cuidar dela. Ao ouvir e analisar os traumas de sua cuidadora, a protagonista leva a relação entre as duas para uma dimensão psicanalítica que atravessa a obra.


Pois, se a psicanálise é uma “análise da alma”, é justamente isso que acontece na relação entre as personagens. Elisabeth permanece em silêncio enquanto Alma fala. E, quando as personas (máscaras no sentido junguiano) passam a se confrontar por meio de seus traumas, especialmente em relação ao filho, a possível “conclusão” de seus conflitos, que são ao mesmo tempo iguais e distintos, só parece possível quando vamos além da máscara.


Sabendo que o trauma das protagonistas está relacionado à maternidade, mesmo que de formas distintas para cada uma, a dimensão da figura do feminino na sociedade passa a ser outro tema que o longa aborda. É como se, para serem felizes, ambas tivessem de usar suas máscaras, até que, no convívio com a outra, elas caíssem.


Ao subirem os créditos, sabemos que o garoto que encontramos em uma espécie de necrotério e que fica com a mão próxima à imagem de Elisabeth projetada na parede é, na verdade, seu filho. Isso dá uma conotação trágica e compreensível ao seu silêncio. Pesquisando para a crítica, descobri que o livro que o garoto está lendo é O Herói de Nosso Tempo, romance russo que marca a passagem do romantismo ao realismo.


Também descobri que Elisabeth é uma forma do nome Isabel. Mesmo sem podermos afirmar essa intenção, é curioso pensar que Bergman, que tem em sua filmografia uma crítica aos dogmas cristãos e dá voz a personagens femininas fortes, possa ter escolhido esse nome para sua protagonista em relação à figura bíblica de Isabel, ainda que em uma perspectiva oposta.


Um dos pontos mais interessantes de se observar é que o longa é uma Persona em si mesmo. É como se Bergman, a todo momento, construísse um filme e quisesse demonstrar ao espectador que está assistindo a um. O espaço cênico é minimalista, sendo utilizado mais como um pretexto para confinar as protagonistas e como uma extensão de suas psiques. Quando nos aprofundamos nas atuações, podemos notar como o psicológico é de grande interesse para o diretor.


A montagem de Ulla Ryghe já começa com um tom experimental, com inúmeras imagens na abertura, e se repete depois que o longa para e a película pega fogo. Na cena em que ouvimos Alma falar por Elisabeth, em uma bela inversão psicanalítica, a sequência se repete duas vezes.


Essa noção autoconsciente de mostrar que o espectador está assistindo a um filme não quebra por completo nossa imersão no longa. Bergman coloca e tira a máscara sobre sua própria obra e nos oferece mais uma camada para interpretarmos seu filme. O que nos leva a um dos momentos de que mais gosto na obra (que inclusive utilizo no meu blog) quando Elisabeth quebra a quarta parede e fotografa a câmera que a filma. É como se Liv Ullmann registrasse a própria experiência que nós, espectadores, estamos vivendo.

Persona é um clássico que completa 60 anos e seguirá sendo estudado e referenciado para sempre. Ingmar Bergman mostra as máscaras e os papéis do feminino, da psique e do próprio cinema. E, para o leitor que leu meu texto, mostra também minha Persona Crítica, enquanto escrevo sobre aquilo que tanto amo.


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Para Amantes de Cinema

Persona Crítica. Propriedade Daniel Victor. Crítica de Cinema

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