O Shaolin do Sertão 2: A comédia cearense, a persistência e os excessos
- Daniel Victor
- há 2 dias
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O Shaolin do Sertão 2 (2026) de Halder Gomes
Por: Daniel Victor

No bate-papo com Halder Gomes e parte do elenco após a cabine de imprensa de O Shaolin do Sertão 2, Edmilson Filho disse que via, como principal mensagem do longa, a persistência diante das adversidades da vida. É que Aluízio Lee era um protagonista tão querido, que se tornou maior do que o próprio ator.
A fala de Edmilson parece resumir bem sua parceria com Halder. Desde Cine Holliúdy (2012), que foi um enorme sucesso, a dupla tem sido um grande porta-voz e vitrine para a comédia cearense em âmbito nacional e internacional. Além da persistência, há uma enorme resistência do realizador, que leva sua cultura local (que é a minha terra também) e toda a sua irreverência ao longo dos anos em vários projetos. Por mais que eu ache louvável todo o trabalho do diretor, tenho que confessar que os excessos podem pender tanto para o positivo quanto para o negativo quando assisto a suas obras.
Após dez anos dos acontecimentos do primeiro longa, Aluízio Lee (Edmilson Filho) perdeu sua academia, perdeu sua mãe e está endividado. Para recuperar sua autoestima e limpar seu nome, ele entra em um torneio que viajará pelo Ceará desafiando os mais diversos oponentes. Antigos e novos parceiros entram em sua trajetória, enquanto nosso protagonista vive várias confusões para tentar se tornar um verdadeiro mestre das lutas.
O roteiro foi escrito em conjunto por L.G. Bayão, Halder e Edmilson. A estrutura narrativa parece com a do primeiro, em que o protagonista desajeitado e sonhador tem que provar novamente seu valor. No entanto, novas camadas são acrescentadas na sequência, pois Aluízio perdeu o que já tinha conquistado e, com a morte de sua mãe, Dona Zefa (Fafy Siqueira), a trama passa a reforçar o tom de superação.
Antigos nomes retornam com mudanças pontuais: Chinês (Falcão), continua como o mestre, mas ainda mais caricato para referenciar Pai Mei (onde seu nome vira piada no cearensês), Dona Zefa passa aconselhar o filho do céu (irei retornar essa parte). Já outros personagens sofrem mudanças significativas como Piolho (Igor Jansen), de antigo pupilo do protagonista, passou a servir os mais ricos. Tora Pleura (Fábio Goulart) antagonista no primeiro longa, agora é aliado.
Já novos nomes se destacam: Micróbio (João Pedro Frota), o único aprendiz de Aluízio; MZ (João 'Seu' Pimenta), que se une ao grupo do protagonista sem muito propósito narrativo, mas que deve agradar ao público; Jussymara (Priscila Fantin), como novo interesse romântico; e Demóstenes (Marcelo Serrado), que organiza as lutas sem uma intenção tão nobre.
O longa homenageia o cinema e outras artes, nas cenas em que vemos Dona Zefa no céu junto a figuras célebres. A fotografia de Carina Sanginitto enaltece a beleza das paisagens cearenses com planos gerais, enquanto os personagens são enquadrados, em sua maioria, centralizados. Halder utiliza uma estrutura de jogos de luta (Mortal Kombat e Street Fighter) para a jornada do protagonista, em que cada oponente representa uma nova fase, e o último desafio (com uma participação especial) é uma alusão à luta de Bruce Lee vs. Chuck Norris em O Voo do Dragão (1972).
No entanto, todas essas referências e o cearensês característico nas obras do diretor vêm com excessos e sem nenhum tipo de respiro. Uma piada atrás da outra e uma narrativa que usa o modelo do primeiro e acrescenta diversas ideias que se repetem a cada cena. Em Cine Holliúdy, o uso de expressões típicas cearenses, trazendo originalidade às produções no certame nacional, agora parece que virou uma muleta utilizada por Halder sem qualquer tipo de freio, que pode se justificar pelo apelo popular, mesmo que soe como exagerado.
Fora que alguns momentos carregam constrangimento, como na música cantada inúmeras vezes por Demóstenes ou nas piadas que fazem uso do humor físico ou escrachado. Porém, o quesito que me faz não apreciar tanto a filmografia do diretor é justamente que seus personagens não são construídos em arquétipos, mas em estereótipos: o gago, o anão, a gorda do “leite condensado”, “a bicha”... Mesmo que muitas dessas características estejam no imaginário do humor cearense, inúmeros outros longas daqui conseguem construir narrativas em torno dessas figuras sem soar preconceituoso.
O Shaolin do Sertão 2 deve agradar ao público que acompanha e espera há tanto tempo por uma continuação. Pecando pelos excessos ou não, a parceria de Halder Gomes e Edmilson Filho segue frutífera, continuando sem um porta-voz do humor cearense no Brasil e no mundo.




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