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Dia D: O retorno de Spielberg em uma Cosmovisão Científica e Cristã

  • Foto do escritor: Daniel Victor
    Daniel Victor
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

Dia D (2026) de Steven Spielberg

Por: Daniel Victor

Um dos temas que Steven Spielberg já abordou diversas vezes ao longo de sua rica trajetória cinematográfica é o encontro e o contato entre a humanidade e a vida fora da Terra. Acredito que, para entendermos as razões que levaram o cineasta a retornar a um tema tão caro em suas obras, seja preciso fazer uma pergunta: quais foram as circunstâncias e o contexto em que cada um desses filmes foi realizado?


Usando como recorte três longas (já que o realizador tem em sua carreira mais obras com essa temática), o diretor retrata, em Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977), a desconfiança dos cidadãos dos EUA com o governo devido ao Caso Watergate. E.T. - O Extraterrestre (1982) demonstra uma visão otimista do cineasta para com o temor e a paranoia da Guerra Fria (abordagem corajosa, pois se distanciava das produções feitas à época). Por sua vez, Guerra dos Mundos (2005) marca o medo de uma nação que foi recentemente atacada no 11 de Setembro de 2001.


O governo de Donald Trump tem “revelado” mistérios para os cidadãos (uma cortina de fumaça para esconder as barbaridades de sua administração), reformulando o termo OVNI para UAP (Unidentified Aerial Phenomena ou Fenômenos Aéreos Não Identificados). Spielberg faz uso do contexto de nosso tempo em sua nova produção Dia D. O cineasta discute o autoritarismo atual dos EUA em um longa que utiliza da Cosmovisão Científica e Cristã para retratar esse novo encontro.


Acompanhamos Daniel Kellner (Josh O'Connor), um ex-funcionário foragido da WARDEX, uma agência do governo dos EUA que oculta e protege informações sigilosas sobre o universo. Carregando consigo documentos secretos roubados de seu antigo local de trabalho, ele se vê envolvido em uma trama conspiracional. Quando a repórter Margaret Fairchild (Emily Blunt) começa a falar em uma língua 'desconhecida' durante a previsão do tempo, inicia-se uma corrida contra o tempo entre a organização e aqueles que desejam revelar que não estamos sozinhos no cosmos.


O roteiro é assinado mais uma vez pela parceria entre Steven Spielberg e David Koepp - colaboradores em Jurassic Park (1993), Guerra dos Mundos (2005) e nos dois últimos filmes da franquia Indiana Jones (2008 e 2023). Apesar de o título original ser Disclosure Day, que em tradução direta significa “Dia da Revelação”, a trama concentra seu foco na conspiração e no embate entre aqueles que desejam revelar a verdade e os que tentam impedir que ela venha à tona.


No entanto, o cineasta compreende o peso que uma revelação dessa magnitude teria para a humanidade. Sua escolha de unir ciência e  é um dos pilares da construção da história. Esse encontro de cosmovisões remete diretamente a Contato (1997), adaptação do romance homônimo de Carl Sagan. A referência mais evidente está na citação: "Se não existe vida fora da Terra, o universo é um imenso desperdício de espaço", frase que evoca imediatamente o longa dirigido por Robert Zemeckis.


As referências cristãs e ao conhecimento também estão presentes nos nomes dos personagens. Daniel carrega consigo os documentos da "Revelação", uma possível alusão ao significado do nome Apocalipse. Margaret, por sua vez, significa "criatura de luz", reforçando sua função dentro da narrativa. Já a WARDEX é comandada por Noah (Colin Firth), equivalente a Noé, personagem bíblico encarregado de proteger e preservar a Arca. Por fim, Hugo (Colman Domingo), a mente por trás da resistência à organização, possui um nome associado ao intelecto e ao pensamento.


O desconhecido paira ao mesmo tempo nos campos do científico e do metafísico. Em uma cena que envolve a personagem Jane Blankenship (Eve Hewson), par romântico de Daniel e figura com ligação direta à igreja, o que já temos idealizado sobre a Possessão ganha novos contornos e significados no longa. Alguns elementos remetem a outras obras da carreira de Spielberg que transitam entre o racional e o místico: o controle exercido pela WARDEX evoca Minority Report (2002), enquanto uma sequência envolvendo um trem remete à franquia Indiana Jones.


A fotografia Janusz Kaminsk somada a direção de Spielberg utilizam os espaços internos e externos para criar um tom grandiosidade do filme. A mise en scène, é extremamente bem executada com os movimentos de câmeras e os atores. O design de produção de Adam Stockhausen, aliado ao trabalho de efeitos especiais, torna as locações críveis, embora, em um ou dois momentos, o CGI quebre completamente a imersão.


A fotografia de Janusz Kamiński, somada à direção de Spielberg, utiliza com maestria os espaços internos e externos para conferir um tom de grandiosidade à obra. A mise en scène é extremamente bem executada por meio dos movimentos de câmera e do posicionamento dos atores. Complementando essa atmosfera, o design de produção de Adam Stockhausen, aliado ao trabalho de efeitos especiais, torna as locações críveis embora, em um ou dois momentos, o CGI quebre completamente a imersão."


Paralelamente, a direção de arte de Deborah Jensen e os figurinos de Paul Tazewell fazem uso das cores para simbolizar os protagonistas. O amarelo representa Daniel, enquanto o vermelho é associado a Margaret. Trata-se de uma escolha inteligente para antecipar visualmente a conexão entre eles antes mesmo da primeira interação em tela, já que ele veste uma camisa vermelha e ela surge com uma peça amarela.


Um grande destaque da produção está nas primeiras interações entre humanos e alienígenas, que ocorrem por meio dos animais nos primeiros contatos com os personagens. A escolha reforça tanto o simbolismo cristão, com alusões à Arca de Noé, à Páscoa e ao Natal, quanto a perspectiva científica presente na obra. Afinal, se existe vida fora da Terra, nosso primeiro contato necessariamente precisaria ocorrer de forma direta? Essas cenas, somadas à trilha sonora do mestre John Williams, transformam cada encontro em verdadeiros espetáculos.


Entretanto, quando finalmente chegamos ao momento da revelação, toda a encenação cuidadosa perde o fôlego e torna-se algo patético. Tudo o que o longa constrói minuciosamente transforma-se em uma grande caricatura. Se em determinados momentos enxergamos aquele “Spielberg das antigas”, o clímax e o desfecho acabam destruindo completamente o impacto e a força desse “primeiro contato”.


Apesar de o desfecho não ter impacto algum, a mensagem da obra ressoou em mim. Afinal, a ficção científica e tudo aquilo que está ligado ao desconhecido raramente falam sobre um futuro distante ou um passado por vezes esquecido, mas sobre o presente. O retorno do cineasta a um dos temas mais centrais de sua trajetória cinematográfica representa o momento atual de nosso mundo. Pois o verdadeiro encontro não está lá fora, mas no contato que a humanidade precisa manter ou reconstruir para continuarmos vivos.


Dia D é um retrato do mundo atual e marca o retorno de Steven Spielberg a um tema tão caro em sua filmografia. Mesmo que o longa não alcance o panteão das grandes obras do cineasta, acredito que esse novo encontro nos oferece uma visão otimista de como podemos restabelecer nossos laços com o outro e com aquilo que nos torna humanos.

 

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Para Amantes de Cinema

Persona Crítica. Propriedade Daniel Victor. Crítica de Cinema

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