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“O Morro dos Ventos Uivantes” - Quando a visão autoral transmite o oposto do que tenta propor

  • Foto do escritor: Daniel Victor
    Daniel Victor
  • há 53 minutos
  • 6 min de leitura

“O Morro dos Ventos Uivantes” (2026) de Emerald Fennell


Por: Daniel Victor.

Gostaria de começar essa crítica desmistificando um elemento presente em inúmeras análises: Uma adaptação requer modificação/transformação. E a “essência da uma obra” não tem como obrigação ser preservada. Já o conceito do cerne/alma de uma criação artística, torna-se subjetivo, devido a inúmeras camadas e interpretações que possamos ter com a arte. Como defende a pesquisadora e autora Linda Hutcheon em seu livro “Uma Teoria da Adaptação”.


Então a escolha da cineasta Emerald Fennell em seu novo longa “O Morro dos Ventos Uivantes”, trata-se de uma adaptação livre, baseada no romance de Emily Brontë. Entretanto, sua versão é extremamente problemática em todos os quesitos. Pois no campo do senso comum, seu filme deturpa completamente qualquer tipo de “essência” da obra original. E propondo um “novo olhar”, a diretora (e que também roteiriza), cria um algo que beira a paródia, indo de encontro a temas presentes na filmografia da realizadora.


Acompanhamos aqui a história Catherine/ Earnshaw (Charlotte Mellington), uma garota filha do grande oligarca Hindley Earnshaw (Martin Clunes), dono da mansão conhecida Morro dos Ventos Uivantes. Que adota o órfão Heathcliff (Owen Cooper), para ser um serviçal. As duas crianças vivem juntas, enfrentando o local hostil onde vivem, onde vivem um amor inocente na infância.


A trama avança e a família Earnshaw, convive com problemas financeiros. Entretanto, perto de onde vivem, a família Linton, que é bastante rica, passa a morar na região. Agora já adulta, Cathy (Margot Robbie), para não entrar na decadência iminente, casa-se com Edgar Linton (Shazad Latif), o que enfurece Heathcliff (Jacob Elordi), e foge da mansão, pois ele e Catherine são apaixonados um pelo outro. Anos após a fuga, Heathcliff retorna querendo vingança, porém o encontro com Cathy vira uma espiral de amor e ódio que os leva à ruína.


Para começar é um tanto quanto patético utilizar aspas para informar ao público que não se trata de adaptação fiel, mas uma “visão pessoal” da obra. Esse artifício que tem a intenção de respeitar, criando um distanciamento do original, trata-se de uma defesa prévia da realizadora para críticas ao seu filme. “Essa é minha versão. Como eu gostaria que a história fosse”, diz Fennell em entrevista. Como se cineastas que já foram acusados por diversos autores, publicamente, de modificar a “essência”, precisa-se de alguma desculpa por seus trabalhos. Stephen King detesta Stanley Kubrick por ter deturpado a cerne/alma de seu livro. E nem me passa pela cabeça que o diretor pensou em chamar “O Iluminado”, para deixar claro aos espectadores que iria ter modificações.


A diretora apenas utiliza como pano de fundo de O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë (que se revirou no túmulo). Para criar “O Morro dos Ventos Uivantes”, pregando o “novo olhar”, porém, apenas para utilizar a fama do romance ao seu favor. Achando que aspas seria a melhor ideia para prestar respeito e informar que seu longa é diferente até de adaptações que o livro já tivera no cinema. Porém, o que testemunha é o contrário que fez a cineasta criar sua fama. Pois aqui temos algo tão caricato, que se torna uma paródia onde a misoginia é criada pela autora.


O erótico, cenas com fluidos, cenários exagerados, relações de conflito de poder entre os personagens. Tudo que é caro a filmografia de Fennell, está presente aqui. Porém, de uma maneira tosca e bizarra. O Morro dos Ventos Uivantes, que é a região que se passa a história, fica restrita apenas à mansão da família Earnshaw. Que na verdade é um casarão em pura decadência, onde o único cômodo luxuoso é um que contém, pisos brancos e pretos. Que é para demonstrar a dualidade entre a relação de Catherine e Heathcliff (amor e ódio). Mas a escolha exagerada é proposital para demonstrar a diferença do luxo da família Linton. Que também se torna uma caricatura, com cores saturadas exageradas e com elementos metafóricos, que já foram utilizados em outros filmes de forma mais efetiva e convincente.


O erótico é utilizado de forma que de certa forma funciona em alguns casos e outros é apenas capricho da diretora. O sexo e prazer está interligado como punição e controle. A primeira cena do longa já deixa bem claro isso. Porém, nenhuma cena de sexo, consegue nem no “chocar” ou uma tensão sexual em benefício da narrativa. Apenas como objeto de controle, é que as pulsões sexuais têm alguma função na história. Porém, até nessas cenas que funcionam, chega a ser constrangedor como alguns personagens beiram ao ridículo.


Chega ser inacreditável ver Margot Robbie e Jacob Elordi terem que “se virar” com o texto e entregar algum tipo de química entre eles dois. O Morro dos Ventos Uivantes não é uma história de amor, muito menos “A História de Amor de Todos os Tempos”, como o marketing vendeu o longa. O romance Emily Brontë é um clássico porque subverte os romances vitorianos. A trama é sobre ódio e vingança. Os personagens do livro são detestáveis, e os que são bons, pagam por isso. Pois a intenção de Brontë, era justamente de criar personagens tão complexos, pois no ódio é que se esconde o amor.


No longa de Fennel, somente a parte detestável é utilizada. Chega ser inacreditável como em uma mesma cena, vemos personagens agir de certa forma ou falar algo e se contradizer em seguida. Para que em na próxima cena, anular a anterior. Como é que a cineasta espera que o público se apague a algum personagem, se tudo se contradiz e foge a lógica?


Chega a ser cômico e constrangedor certas escolhas no longa. Colocar o Patriarca da família Earnshaw, sendo o utilizado como o irmão de Cathy como a mesma pessoa. Pois no livro, Hindley (o irmão), odeia Heathcliff. Já o pai o ama e adota o órfão, pelo preconceito pela sua pele escura. E aqui Jacob Elordi foi escolhido para interpretar Heathcliff, ignorando qualquer discussão sobre o ódio, preconceito e o motivo da sua vingança. Aqui o personagem foi apenas um mero coitado, que tinha amor por Catherine, mas como ele se casou com outro homem, ele foge para poder se vingar.


Mas nada se compara a misoginia com as personagens femininas. Mas nada se compara a misoginia com as personagens femininas. Catherine é uma mulher que ama Heathcliff, mas escolhe Edgar, porém “sofre com essa escolha”. Nelly (Hong Chau), uma governanta que manipula os demais personagens (diferente do romance onde ela é uma das narradoras), para dar mais papel de destaque. Entretanto, suas escolhas causam a maior parte das tragédias da trama. Mas nada se compara ao que o longa faz com a personagem de Isabella (Alison Oliver), a forma que ela é apresentada, como se comporta de forma estranha e o que se torna depois do casamento, chega ser constrangedor.


Todas as personagens femininas são o motivo da maior parte da tragédia do longa. Tirando o pai, os homens são bons aqui. E a vingança de Heathcliff é de certa forma compreensível, pois Fennel muda pontos cruciais, que consertam o conflito do antagonista e potencializa a culpa das mulheres. Sim, você que conhece o livro não leu errado. A vingança de Heathcliff e toda sua maldade é diluída ao ponto de o espectador pensar: “Ele é ruim. Assim como os demais”.


Porém temos pontos positivos (Nossa, que bom), mas que funcionam isoladamente. A direção de fotografia de Linus Sandgren e a direção de arte de Caroline Barclay são bonitos. E as músicas originais de Charli xcx, dão um tom “50 tons de Cinza” para o longa. Confesso, que esse último tópico, não soa como um elogio.


“O Morro dos Ventos Uivantes” é um grande desastre. A diretora Emerald Fennell, criou sua fama em seus filmes o erótico, as relações de poder e cenas bem filmadas, fossem uma forma revolucionária contra o cinema que é quase todo produção é masculina. Entretanto, sua “visão “traz misoginia e os exageros trazem o constrangedor. E não há aspas no mundo que salve esse longa.


Agora para os leitores que leram essa crítica. Se você não conhece o romance O Morro dos Ventos Uivantes de Emily Brontë, dê uma chance a esse clássico da literatura mundial. E as que não conhecem, peço que deem uma chance também. Pois uma péssima adaptação, não merece manchar a genialidade do original.

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Para Amantes de Cinema

Persona Crítica. Propriedade Daniel Victor. Crítica de Cinema

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