Hamnet: A Vida Antes de Hamlet - Como a Arte, Poesia, Alegria e Dor nos unem perante a Vida e a Morte.
- Daniel Victor
- 15 de jan.
- 9 min de leitura
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025) de Chloé Zhao
Por: Daniel Victor.

Tenho de confessar que ao término da sessão de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, enquanto subiam os créditos, duas reflexões vieram à minha mente: A primeira consiste no impressionante talento da diretora Chloé Zhao, em criar um longa tão poderoso e com várias camadas, acertando nas escolhas de linguagem e narrativa. A segunda é que senti a necessidade de criar um Bloco com Spoilers. Entretanto, não se preocupe leitor! Esse acréscimo será após a Crítica Finalizada.
Baseado no livro homônimo de Maggie O’ Farrell (que também divide o roteiro com Chloé Zhao), o longa conta a história de Agnes (Jessie Buckley), uma jovem camponesa, vista como uma “bruxa”. Tanto pela herança materna, por sua conexão com a natureza e seu perfil solitário. Que se apaixona por um jovem rapaz, que também não se adequa aos padrões da Inglaterra entre o Século XVI à XVII. Entretanto, o futuro marido e pai dos filhos da nossa protagonista, é o dramaturgo William Shakespeare (Paul Mescal). Porém, com a morte de seu filho Hamnet, Agnes é surpreendida ao saber que uma peça escrita pelo seu amado que se chamará Hamlet. Fazendo que o luto e outros conflitos se intensifiquem na vida do casal.
O primeiro ponto interessante do longa é a escolha do ponto de vista em que a história é contada. A escolha de Agnes ser a protagonista e não Shakespeare, mostra a coragem e ambição do projeto. Primeiro porque seria mais chamativo ao público a trama se basear em um dos dramaturgos mais famosos e influentes da história. Segundo, pois em pesquisas históricas, Agnes é apenas uma “nota de rodapé”, em pesquisadores da história do escritor.
Tal escolha tem dois ganhos bastantes positivos: O primeiro é de a trama ser sobre uma figura feminina. Uma forma dar voz a mulheres que foram e até hoje são invisibilizadas ou apagadas da história em detrimento da figura masculina. Já o segunda, é a liberdade poética em criar uma “Cinebiografia”, sem amarras.
Tanto que na maior parte o nome de Shakespeare é sequer citado, evidenciando que a história é de Agnes. O que dá a liberdade para a diretora criar a história do ponto de vista feminino e desmistificar preconceitos. Nossa protagonista é filha de uma mulher com crenças Pagãs. E Zhao mostra a beleza, sabedoria e a força feminina de uma personagem em relação a Tradição Cristã, que historicamente tentaram eliminar as “bruxas”.
Uma protagonista forte, Agnes vai ganhando respeito com outras mulheres que também partilham conflitos e virtudes parecidas. E, a forma que a criação das duas filhas Susanna (Bodhi Rae Breathnach), Judith (Olivia Lynes) e o filho Hamnet (Jacobi Jupe). Tem uma educação fora dos padrões da época, graças à sabedoria e conhecimento da sua Mãe e do Pai.
Entrando nos aspectos técnicos, o longa é um deleite. A Fotografia de Lukasz Zal, que prioriza a luz natural da natureza, das janelas e velas. Todo Departamento de Som que prioriza os sons ambientes, a Trilha Sonora minimalista de Max Richter, dá ao filme uma imersão no em cada locação e que ajuda a entender a psique dos personagens. E a Montagem de Zhao e Affonso Gonçalves, além de introduzir flashbacks pontuais e necessário para a trama, também trabalha com o sobrenatural/metafísico que a obra utiliza para potencializar ideias presentes na película.
E a escolha da diretora para as atuações com “Cenas de para concorrer ao Oscar”, não diminui em nada as performances de todo elenco. Jessie Buckley constrói uma protagonista com várias camadas e com presença em tela. Ela ri, chora, é introspectiva e alegre. Porém momentos não verbalizados, principalmente no seu olhar, é que a atriz consegue nos passar inúmeros sentimentos, que às vezes são conflitantes. Paul Mescal, traz um William que é muito inteligente, porém, amargurado em relação com sua arte. E outro destaque é para Jacobi Jupe, que interpreta Hamnet, em atuação extremamente madura para sua idade.
Entretanto, é na direção, que o filme ganha contornos maiores. Zhao faz questão de usar escolhas técnicas e de linguagem cinematográficas, para construir a história com diversas metalinguagens e metanarrativas. Onde o poético, metafísico e arte vão interagindo para além do que o espectador espera.
Há duas escolhas de plano que a diretora utiliza no filme que são brilhantes. A primeira é um enquadramento, utilizado diversas vezes no longa: filmar o ambiente de forma frontal, criando um recorte em que os personagens possam agir apenas dentro do quadro. Essa escolha remete ao início da História do Cinema, já que eles filmavam o ambiente como fossem um palco de Teatro. E já que estamos tratando de Shakespeare e Hamlet, nada mais inteligente do que a Mise-en-scène (o termo que o Cinematográfico que nasceu nas Peças Teatrais), faça essa escolha metalinguística.
Em outro plano, Zhao escolhe colocar a câmera em Plongée (de cima para baixo), mas em diferente de outros que a diretora utiliza durante o longa. Neste enquadramento, o plano é dividido na metade. Como se fosse um ponto de vista de algo sobrenatural. E isso casa completamente com a proposta do longa que envolve Agnes, William e Hamnet.
No começo da história, uma das primeiras conversas de Agnes e William é tratar de nos apresentar o Mito de Orfeu e Eurídice. Um conto muito utilizado para representar a dúvida e a perda. Estudado por Filósofos e Psicanalistas. Tal mito, também foi utilizado forma brilhante em um dos meus longas prediletos da década passada no longa Retrato de Uma Jovem em Chamas (2019).
O conto mitológico é fundamental para entendermos o luto (finalmente chegamos nesse assunto). Que devido a morte de Hamnet, Agnes vê suas crenças e seu amor completamente abalado e principalmente pela ausência do seu marido. Ela culpa William e a si mesma, pela solidão e pela perda do filho.
Entretanto, ao saber da nova peça do Marido, Hamlet. O longa sai do ambiente da protagonista para o local do dramaturgo. E novas perspectivas são apresentadas. Finalmente Agnes e William, entendem que todo seu amor e dor têm semelhanças.
O momento da apresentação da peça que culmina do Clímax e desfecho do longa é um dos momentos mais emocionantes do ano. Pois todas as ideias se concluem de forma tão poderosa e poética. Podemos entender o tamanho do luto, a relação afetiva de Agnes com William, e principalmente todo os sentimentos dos pais pala perda do filho. Hamlet é a peça onde poético, metafísico, mítico e arte se encontram e concentram-se. Onde a metalinguagem e metanarrativa se somam em forma de catarse.
E Zhao ainda nos brinda em nos dar vários significados da frase mais célebre que Shakespeare escreveu em Hamlet: “Ser ou não Ser, eis a Questão". Ou em inglês: “To Be or not to Be, that is a Question”. E citando uma reflexão do poeta Brasileiro Paulo Leminski, já fizera em um poema sobre essa frase. “To Be”, tem o significado para “ser” e ao mesmo tempo para “estar”. E isso é fundamental para entendermos os conflitos dos principais personagens.
Bem, essa parte eu explico na parte do Bloco de Spoilers.
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é um daqueles filmes que utilizam o potencial de sua história para criar uma obra que debate como a arte, poesia, alegria e dor nos unem perante a vida e morte. Dá breve, porém potente filmografia de Chloé Zhao, eu considero essa sua obra-prima. Mais do que Nomadland, longa que a agraciou com o Oscar de Melhor Direção e Filme (vocês pensavam que eu não iria falar). E que talvez, possa ser segundo. Pois qualidade e mérito essa película tem de sobra.
Bloco de Spoilers:
Bem, aqui eu irei comentar alguns elementos do longa de forma mais aprofundada. A minha intenção não é explicar o filme, mas trazer minha visão sobre alguns pontos que me tocaram.
Para o leitor que já viu o filme, pode ser que o que eu escreva, possa ajudar a apreciar melhor a obra (ou não). Para quem não viu, leia depois de assistir o longa ou arrisque a levar alguns spoilers.
1 - O Ponto de Vista da Morte:
O plano em plongée que divide a tela ao meio é o “ponto de vista da morte”. A primeira vez que é utilizado é quando Hamnet se despede do seu Pai. O plano se repete quando o filho, faz o que William lhe pede: “ser corajoso e proteger a família”. Então sua irmã que estava enferma a morte a olhava, por serem gêmeos, Hamnet “engana a morte”, e troca de lugar com Judith.
Essa é bem óbvia.
2 - Agnes e William tem ligação com o metafísico:
Essa pode ser óbvia principalmente no ponto de vista da Agnes. Já que em diversos momentos no filme, isso fica claro. Mas no caso de Shakespeare, fica no campo que a arte tem uma função de nos conectar com o metafísico.
Isso já foi abordado diversas vezes pelo Cinema. Uma cena clássica que remete a isso está em O Sétimo Selo (1957) de Ingmar Bergman. Onde o artista vê de longe a morte carregar os demais personagens e amigos na “Dança da Morte”.
Obs. Ingmar Bergman teve sua formação artística inicial no Teatro.
3 - “Ser ou Estar ou Não. Eis a Questão”:
“To Be” significa “Ser” e “Estar” em inglês
“Muito obrigado, Daniel. Eu não Sabia”
“Disponha”
Bem, em um poema de Paulo Leminski. Ele questiona se a frase que sempre traduzimos para “Ser”, poderia ser um “erro de interpretação” na tradução “Estar”, mudaria como nós enxergávamos essa frase célebre de Shakespeare.
E a partir de agora eu vou repetir ambos os verbos e conjugá-los de várias formas com os personagens do filme:
O Casal se Complementava:
Agnes e William podiam ser quem eles eram de fato, pois ambos Eram desprezados pela sociedade:
Ela visto como “Bruxa”
Ele como um “Homem que não servia para nada”
Agnes era a poesia: A Natureza
William era a arte: Saber do criador
A Família era ligada ao Metafísico:
Agnes e o William ao estarem juntos e ao formarem uma família com conhecimento fora da “Esfera Tradicional Cristã”. Seus dons foram passados para os filhos. Já que Hamnet “engana a morte” e troca de lugar com a irmã.
Agnes nunca quis ir para Londres:
Apesar do pedido dos filhos para morrerem com o pai, sabermos que uma das garotas poderia ficar doente com ar da cidade local. Agnes e William mentiam para os filhos dizendo que não era o momento certo de se mudar.
Porém, Agnes nunca seria quem é longe da natureza.
William jamais seria Shakespeare sem Agnes:
Mesmo antes de Agnes pedir para William ir para Londres para ser o Shakespeare. William percebe que pode enfrentar sua família, quando se apaixona por Agnes.
“Ser” e o “Estar’ de William Shakespeare:
Estar com Agnes era a felicidade de William.
Mas ele somente poderia Ser Shakespeare, longe de Agnes.
4 - O Mito de Orfeu e Eurídice Invertido:
Resumindo o Conto Mítico:
Hades aceita que Orfeu possa levar Eurídice do submundo. Contanto que ele não olhasse para trás. Orfeu está perto do mundo dos vivos, mas não sente a presença de sua amada. E na dúvida, ele olha para trás. Porém, Eurídice estava de fato atrás dele. O erro faz que Orfeu faça sua amada retornar para o submundo.
No Universo do Filme:
No longa há sempre um buraco no chão da floresta em que Agnes e William enxergam.
Quando Hamnet faz o sacrifício por sua irmã, ele fica preso no limbo, de frente a um portal.
O mesmo portal presente na peça de Hamlet.
O buraco da floresta e portal simbolizam a passagem para o submundo/além.
O Mito Invertido:
Chloé Zhao toma uma decisão genial. Pois através da montagem, ela interliga todos os personagens e conclui os conflitos.
Agnes e William não estavam com Hamnet no momento exato da morte.
E durante a peça de Hamlet, em que William faz o papel da morte.
Hamnet está diante do portal para atravessar para o submundo/além. Entretanto, durante a peça,
No limbo Hamnet olha para trás. Porém, ele enxerga a Mãe.
Agnes vendo seu Filho, consegue se despedir do Hamnet. Perdoando a Si Mesma, William. E encontrando a paz para seu luto.
Quem olha para trás, está para ir para o submundo/além (Hamnet). Já quem é enxergado, está no mundo dos vivos (Agnes). E se despede do seu filho em paz.
Willian através de sua arte, cria Hamlet. Conseguindo o perdão a sua Agnes e criando a despedida de Mãe e Filho.
Shakespeare eterniza Hament por meio de Hamlet.
Bem, espero que tenham gostado do Bloco dos Spoilers.
Muito obrigado. Bons Filmes.


