A Noiva! - O que significa “Um Monstro” no Mundo em que Vivemos?
- Daniel Victor
- há 11 horas
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A Noiva! (2026) de Maggie Gyllenhaal
Por: Daniel Victor

Ao término de A Noiva! Dois pensamentos vieram à minha mente: O primeiro, é de que esse filme será extremamente divisivo. Devido às escolhas narrativas e de linguagem que a Diretora e Roteirista Maggie Gyllenhaal, tomou para sua leitura/adaptação de A Noiva de Frankenstein (1935), que há época era a continuação de Frankenstein (1931), onde ambos os longas se tornam clássicos. O segundo, é a de que uma artista tenha como objetivo uma visão pessoal e nova, modificando a essência dá obra original. Que ela tenha coragem! Não precisando usar aspas, por medo de ofender o espectador.
É claro que adaptar O Morro dos Ventos Uivantes é uma tarefa árdua, e minha provocação é um tanto quanto “injusta”. O longa de Emerald Fennell é uma releitura de um romance vitoriano de um dos clássicos mais importantes da Literatura. Em A Noiva! A reimaginação é mais “fácil”, já a que mídia é a mesma (Cinema), e que a participação da Noiva de Frankenstein, é pequena no longa de 1935. Entretanto, Maggie Gyllenhaal (que já tinha dirigido o excelente A Filha Perdida - 2021), trás consigo um ambicioso projeto que quebra vários limites do que seria uma “boa adaptação”. Pois aqui a realizadora utiliza da metalinguagem, de gêneros cinematográficos e principalmente a história das mulheres ocidentais, com o recorte do começo do século XX até os dias atuais. Partindo de uma visão feminista, refletir e nos perguntar: Quem são “Os Monstros” no Mundo em que Vivemos?
A história se passa em Chicago na década de 30. Acompanhamos a jovem Ida (Jessie Buckley), que morre de forma trágica. Entretanto, um pouco antes de falecer, uma narradora ilustre entra em contato e possui a protagonista: Mary Shelley. Dias depois, um personagem chega à cidade em busca de ajuda. O Monstro de Frankenstein (Christian Bale), recorre a ajuda da Doutora Euphronios (Annette Bening). e lhe faz um pedido: Uma Companheira. Atendendo o pedido e seguindo o mesmo método que trouxe a criatura do mundo dos mortos, Ida renasce, mas sem nenhuma lembrança do seu passado. A partir daí, acompanhamos a jornada da protagonista, que se depara com o seu passado, que envolve homens poderosos e corruptos, e o romance com a criatura que a reviveu, e o papel da Noiva, nessa relação.
Maggie Gyllenhaal propõe em seu longa um manifesto feminista. Uma ode às mulheres e outras minorias, que até hoje são silenciadas por homens e pelo sistema patriarcal e capitalista em que estamos inseridos. Confesso que os vinte minutos iniciais, quando vemos a morte e Ida, enquanto é possuída por Mary Shelley (também interpretada por Jessie Buckley), estava me incomodando. Entretanto, ao decorrer da projeção, o uso da diretora em criar um mundo metalinguístico e metanarrativo, foi o que um dos elementos que mais gostei em toda a projeção.
A ligação de Mary Shelley Ida é evidente desde o início do filme. Porém, quando o Monstro de Frankenstein procura a Doutora Euphronios (uma cientista considerada “maluca”), para que utilize o mesmo procedimento que Victor Frankenstein, que trouxe a vida, com intuito de ter uma parceira, é muito criativo. Pois misturar figuras da literatura (Shelley e sua Criação), presentes no longa, já mostra ao espectador o caráter experimental da película.
A solidão de Frankenstein e seu pedido por uma parceira, devido ao preconceito e solidão, que ele vive há anos. Contudo, retorna sem memória e com a obrigação de ser um par amoroso, é longa que A Noiva recusa. Porém, o vínculo entre os dois nasce justamente por serem monstros. Bale, constrói um personagem trágico, educado, tímido e contido. Já Buckley, traz uma mulher livre e não tem medo de enfrentar ou chocar o status quo. Porém, quando juntos, um compreende um ao outro em suas diferenças. Frankenstein respeita a companheira, diferente dos outros homens. Já a Noiva, não é apenas uma serva, mas uma personagem um novo sentido de vida ao seu novo amor.
Durante a trama, cenas muito violentas ocorrem no filme, mas com diferenças bastantes evidentes. A primeira vem dos agressores, geralmente homens, que utilizam de seu status social e poder para cometer misoginia e outras formas de preconceitos. Já os monstros precisam ser violentos, devido aos constantes ataques que sofrem. A diretora, não se restringe apenas a questões femininas, já que o longa abre espaço para falar de outras minorias. Como a cena que acontece uma festa em um beco, que representa a Comunidade Queer e como eles são marginalizados pela sociedade.
No longa, as metáforas são bem claras, pois não existe motivo para esconder o que todos nós já sabemos. Vivemos em uma sociedade capitalista e patriarcal, que tenta silenciar mulheres e minorias. No decorrer da trama, enquanto Ida encontra com seu passado. Seu comportamento visto como “monstruoso”, sua figura começa a motivar mulheres a se revoltarem pelo que sofrem. O que é evidenciado na escolha do nome do filme. Já que não assistimos “A Noiva de...”, mas sim uma Exclamação, é uma demonstração por parte da realizadora de evidenciar sua mensagem.
A diretora então brinca com inúmeros gêneros em sequências muito bem executadas: O Gótico, o romance que remete a Bonny e Clyde (1967), o musical, o Estilo Noir, o thriller policial, dentre outros. Mostra toda a destreza de Gyllenhaal em criar um filme metalinguístico e metanarrativo riquíssimo. Junto com a Direção de Fotografia de Lawrence Sher, os Figurinos de Sandy Powell, a Maquiagem de Vanessa Anderson e Direção de Arte de Angelica Borrero, contribuem com universo do longa.
Outros personagens são muito importantes para história. A dupla de detetives Jake Wiles (Peter Sarsgaard) e Myrna Malloy (Penélope Cruz), que evidencia o machismo e a diferença de chances que homens e mulheres têm na sociedade. Ronnie Reed (Jake Gyllenhaal, irmão da Diretora), que faz um ator de ator de musical no qual Frankenstein é fã, demostrando a dicotomia entre os “homens de sucesso” e “outsiders”. E a própria Doutora Euphronios, que utiliza o nome masculino para publicar seus artigos científicos. Algo que era comum, para que as publicações femininas serem consideradas relevantes
A Noiva! é um longa ambicioso, feminista, claro em sua mensagem. Maggie Gyllenhaal, aposta em alto por experimentar sem medo. O filme será divisivo. Eu escolho estar dos “Monstros”. Pois a “monstruosidade”, na verdade é resistência, que todos os dias das figuras que ditam a “normalidade”, enquanto praticam o mal e querer sair impunes.




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