Natal Amargo: Entre a autoficção e o desgaste
- Daniel Victor
- 30 de mai.
- 4 min de leitura
Natal Amargo (2026) de Pedro Almodóvar
Por: Daniel Victor

“Eu estou farto de mim mesmo. Eu não quero recorrer a mim mesmo para continuar escrevendo” [...] “Estou procurando alguém que eu queira escrever, porque até agora hoje escrevi sozinho. Alguém com quem compartilhar e me traga um mundo diferente do meu.” Foi o que confessou Pedro Almodóvar, em sua coletiva de imprensa no Festival de Cannes, sobre os novos rumos que o diretor espanhol pretende seguir em sua carreira.
O recorte da fala de Almodóvar ajudou a compreender os motivos dos meus sentimentos mistos em relação ao seu novo longa, Natal Amargo. Ao mesmo tempo em que a obra utiliza sua metanarrativa de forma interessante para discutir os dilemas éticos e os limites sobre o que um artista deve (ou não) se apropriar da “realidade”, a experiência me deixou perplexo diante do desleixo e dos deslizes presentes em diversos momentos da produção, indo de encontro à sua própria filmografia que preza pela atenção aos detalhes.
Acompanhamos duas histórias paralelas que se passam em Madrid e nas Ilhas Canárias. Na primeira, somos apresentados a Elsa (Bárbara Lennie), uma publicitária e ex-diretora de filmes cults que tenta desenvolver um novo argumento para um possível retorno à carreira cinematográfica, enquanto lida com seus ataques de pânico e o luto pela perda da mãe durante o período natalino. No entanto, toda trama faz parte do roteiro de Raúl Rossetti (Leonardo Sbaraglia), um diretor consagrado que tenta escrever depois de anos em hiato.
Uma Autoficção aparece logo abaixo quando é nos apresentados. Almodóvar vai direto ao ponto que não está disposto a criar floreios para possíveis interpretações sobre o que deseja falar. Elsa e Raúl, além da função de alter egos, representam a dificuldade criativa e a pressão de um diretor em ter que entregar obras-primas devido ao peso do legado que ele mesmo construiu.
Elsa é uma publicitária que convive com crises de pânico e fortes enxaquecas, enquanto Raúl é um diretor que vive das glórias de sua fama e busca na escrita alguma motivação para voltar à ativa. Por mais que os personagens funcionem como um retrato das angústias de Almodóvar, a forma como seus conflitos são desenvolvidos frequentemente soa como uma grande paródia. A protagonista afirma estar sofrendo, mas suas atitudes e reações transmitem a sensação oposta. Já o célebre realizador não convence que atravessa alguma crise criativa.
Os demais personagens da trama aparentam ser um compilado de ideias que o diretor espanhol já nos apresentou em sua filmografia, mas sem nenhuma personalidade. Bonifácio (Patrick Criado) e Santi (Quim Gutiérrez) são figuras masculinas que servem apenas de apoio emocional para seus parceiros (Elsa e Raúl). Já Patrícia (Victoria Luengo) e Natalia (Milena Smit) vivem as mulheres melodramáticas típicas de Almodóvar. O conflito da primeira “remete” ao longa Blow-Up (1966), mas é desenvolvido de forma tão rasa que transforma uma possível homenagem ao clássico de Antonioni em algo patético. A segunda, por sua vez, parece existir quase exclusivamente para reforçar a estrutura metanarrativa do filme, esvaziando sua própria tragédia.
O desenvolvimento narrativo ainda é prejudicado por uma montagem confusa e por um roteiro com momentos constrangedores. A edição de Teresa Font (parceira de vários projetos do realizador espanhol) cria uma desorientação temporal na qual passado e presente entram constantemente em colisão. Entretanto, é no texto escrito por Almodóvar que surgem graves deslizes, alguns deles beirando o amadorismo. Em uma das cenas, Raúl conclui sua história no notebook (onde vemos a palavra "fim"). Instantes depois, Santi pede para ler o que foi escrito e recebe o texto completo já impresso, ignorando o fato de que o roteiro havia sido finalizado poucos segundos antes.
A função metanarrativa não é apenas um capricho do diretor para falar de seus conflitos. O roteiro que Elsa desenvolve contém elementos de sua própria realidade e situações que de fato acontecem a ela, criando um espelho no mundo de Raúl. Essa abordagem é fascinante por demonstrar os limites morais e éticos sobre o quanto um realizador deve ou não se apropriar do universo em que vive para alimentar suas obras.
Essa dinâmica é enfatizada pela relação de Raúl com Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), produtora e gestora de sua carreira, que passa a enxergar fragmentos de sua vida íntima expostos no roteiro escrito pelo parceiro. O que, por sua vez, revela um espelho da realidade de Elsa. Ao levantar essas questões éticas, Almodóvar demonstra que seu desgaste também se deu por sempre ter sido um artista fustigado pelas polêmicas de sua própria exposição. O que nos faz pensar: Quantas vezes o diretor teve que encarar esse mesmo tribunal íntimo ao longo de sua trajetória?
O longa conta com uma estética mais contida. A direção de arte de Isabel Peinado mantém as cores vivas características do realizador, mas apresentadas de forma menos chamativa. Uma luva em tom azul ou uma camisa vermelha por baixo de outra vestimenta são alguns exemplos dessa sutileza. A cor branca (alusão ao Natal) é a que mais ganha destaque na obra.
Almodóvar utiliza a metanarrativa a seu favor de forma criativa. Em uma cena, Raúl e Mónica discutem sobre os motivos pelos quais o realizador utiliza acontecimentos da vida de sua amiga para a criação da história. Ela chega a comentar: “Esse roteiro está cheio de falhas. Personagens importantes desaparecem sem explicação. Outros aparecem tarde demais. O espectador vai perceber, Raúl”. Uma excelente sacada em que o diretor espanhol transforma seus próprios deslizes em erros autoconscientes. É como se a história de Elsa fosse, na verdade, um esboço inicial de uma obra ainda em processo de criação.
Natal Amargo é o autorretrato do desgaste de Pedro Almodóvar, um exercício metanarrativo que funciona como reflexão sobre o momento atual de sua carreira. Mesmo com o desleixo em alguns pontos, o longa já nos mostra pistas do futuro que o diretor espanhol pretende seguir em suas novas produções. Apesar de eu não ter apreciado o filme tanto quanto gostaria, espero que essa mudança de rota possa gerar uma nova safra de sucessos. Pois talento, o realizador ainda tem de sobra.




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