Marty Supreme: Um sonho, um jogador caótico, a identidade de uma Nação.
- Daniel Victor
- 22 de jan.
- 6 min de leitura
Marty Supreme (2025) de Josh Safdie
Por: Daniel Victor.

Utilizando como referência o livro “A Arte do Cinema: Uma Introdução” dos acadêmicos David Bordwell e Kristin Thompson, ao que se refere a análise fílmica. Segunda a dupla existem 4 tipos de Significados que podemos que podemos ter com um filme, onde cada “camada” está ligada ao nível de abstração que cada espectador poderá ter com a história da obra.
Eu não irei explicar cada significado e nem ao menos afirmar essa seja única maneira de interpretação para análise de uma obra. Entretanto, partindo dessa referência citada no parágrafo anterior. Refletindo sobre o longa Marty Supreme, creio que o diretor Josh Safdie cria uma “cinebiografia” que foge do convencional, onde são as camadas que fazem do seu projeto um tanto especial.
O longa conta a história do Mesa Tenista Marty Mauser (Timothée Chalamet). Um homem que tem como sonho ser o “Melhor Jogador de Ping Pong do Mundo”. Porém, sua jornada não segue exatamente os caminhos que o protagonista acredita está destinado. Acompanhamos sua trajetória caótica em uma comédia dramática, sobre o quão longe pode ir uma pessoa pela sua ambição doentia pelo sucesso.
O Primeiro fator que faz o projeto interessante é que Marty Mauser foi inspirado em Marty Reisman, um Mesa Tenista que viveu na década de 50 nos EUA e que tinha a fama de “malandro”. Porém, a história do longa parte apenas dessa inspiração para criar uma narrativa completamente nova. Essa liberdade a Josh Safdie não precisa seguir as “amarras dos fatos”. É o que diferencia quanto ao filme “Coração de Lutador - The Smashing Machine” (2025), de Benny Safdie. Marty Supreme remete mais ao ritmo e caos de Joias Brutas (2019), dirigido pela dupla de diretores.
Com essa liberdade em criar uma história própria, faz que o longa nem seja sobre Ping Pong ou Tênis de Mesa (que nomenclatura correta), é apenas um artifício. Não se trata de uma “Ode aos Pioneiros” que popularizaram ou criaram o esporte. Acompanhamos um homem que sonha em ser “eternizado na história” e para isso não vai medir esforços para tentar atingir o que ele acredita ser seu destino. Marty é um homem ambicioso, e que coloca seu “sonho em ser celebre”, acima de qualquer coisa ou pessoa. E fugindo de uma “cinebiografia”, Safdie cria um filme que na sua primeira camada é sobre um protagonista sem escrúpulos, em comédia de erros e um drama sobre poder. Entretanto, também podemos interpretar a narrativa como a “visão de uma nação” (EUA), para com o resto do mundo. Em nome dos interesses próprios, levam o caos para os demais, em benefício próprio.
Marty apesar de ser desprezível é um protagonista carismático e magnético. A atuação de Timothée Chalamet é uma daquelas que o ator some em meio ao personagem. Entretanto, apesar de interpretar um homem com camadas, a interpretação não exige tanta complexidade emocional. A direção de Safdie e a fotografia de Darius Khondji, que praticamente “cola” a câmera no protagonista, fazendo que tudo gire ao redor dele, ajuda bastante nossa noção de “excelente atuação”.
O protagonista tem um sonho e acredita tanto que está destinado à grandeza, que tenta convencer todos ao redor que sua megalomania dará certo. Porém, como seus planos não vão de acordo com que ele imaginou, o personagem deixa um rastro caótico na vida dos demais, sem se culpar. Esse magnetismo e desprezo que temos por Marty é um ponto forte do longa, pois não torcemos por ele, mas queremos saber até onde sua ambição doentia o levará. Utilizar o sobrenome no título do filme Supreme, nos faz entender o quão superlativo são suas ações em nome do crê. Já é fato que Chalamet deixou claro que quer ser um dos grandes atores da história do cinema. E a escolha de interpretar o homem que tem o mesmo perfil é interessante. Apesar de eu acreditar que ator seja moralmente o oposto de quem ele interpreta.
Porém a moralidade detestável não se aplica apenas ao protagonista. Os personagens, em sua grande maioria, são personagens desagradáveis. No que representa os homens, há uma clara divisão entre os pobres e ricos. No “núcleo dos humildes”, se destacam duas figuras: Wally (interpretado pelo rapper Tyler, The Creator, em sua primeira performance no cinema), um taxista que é parceiro no tênis de mesa e Hoff (Peen Jillette), filho do primeiro patrão de Marty. Ambos querem ajudar o personagem principal a realizar sua ambição, pois também querem subir na vida. Entretanto, quanto mais entram no caos causado pela ação do amigo, mais eles enfrentam as consequências dessa megalomania.
Já no “núcleo dos ricos”, outras duas figuras também se destacam: Milton Rockwell (Kevin O’Leavy), um magnata multimilionário, e Erza (Abel Ferrara), um homem rico e perigoso, que se importa apenas com seu cão. São outros personagens que passam pela vida do protagonista, mas aqui o oprime e humilha. Safdie utiliza de forma proposital em criar homens estereotipados: Wally (malandro das ruas), Hoff (o nerd submisso ao pai), Rockwell (os empresários) e Erza (um tipo gangster). Porém a um “elo” une todos: o poder. Os “humildes” que sonha em ascender na vida e os “ricos”, que utilizam de seus privilégios para humilhar os demais. Essa escolha do diretor fortalece nosso protagonista, pois ele está no meio dos dois pólos, dando camadas que fogem de estereótipos.
As personagens femininas também mostram suas facetas moralmente ambíguas. Rachel (Odessa A’zion), é amante de Marty e está grávida. Já Kay Stone (Gwyneth Paltrow), é uma atriz que passou do seu auge e é casada com Rockwell. Mas aqui a relação do poder é utilizada de forma diferente. Tais mulheres são “condenadas”, pelas ações irresponsáveis dos homens, e suas ações questionáveis se justificam perante a opressão. O machismo do longa é proposital. Pois não retrata apenas figuras masculinas que Marty também representa, mais a identidade nação dos EUA.
O roteiro e edição de Safdie com a parceria de Ronald Bronstein, é que cria essa comédia dramática. Pulamos de história para outra em uma crescente constante de caos. Onde nosso protagonista deixa um rastro de destruição na vida dos outros personagens sem remorso. Esse excesso de tramas faz parte da assinatura do diretor, mas esses saltos de trama e trama, fazem alusão ao tênis de mesa. Pois somos o espectador que segue a vida de Marty, que de um lado para o outro e sempre de forma imprevisível.
Porém a melhor escolha do longa é seu antagonista. O mesa-tenista japonês Koto Endo (Koto Kawaguchi), que foi inspirado em um lendário jogador do esporte, é tratado como um “Nêmesis”, do protagonista. Pois inicialmente, o filme nos faz acreditar que ele trapaceou na disputa com Marty. E a necessidade pela revanche que acompanhamos o personagem principal tentar de todas as formas apenas pela satisfação pessoal, não importando as consequências e vidas que são afetadas, só demostra o quão essa ambição cega é uma metáfora não somente do Mauser.
A identidade dos EUA é mostrada através do protagonista e das relações do poder no longa. Ao longo da história, os Estados Unidos causam caos no mundo todo sem medir consequências, por interesses próprios. E como um filme é um retrato do seu tempo, nada mais representativo fazer um paralelo a Marty ao atual Presidente dessa Nação.
O que torna no mínimo curioso que a disputa do Oscar de Melhor Ator esteja entre Timothée Chalamet e Wagner Moura. Quem em seus respectivos filmes representam a identidade do seu país. Entretanto, de forma completamente opostas. E ainda mais interessante é o desfecho que os protagonistas têm em suas obras. Pois se em O Agente Secreto (2025), parte do público não gostou da conclusão escolhida por Kleber Mendonça Filho, mas que condiz perfeitamente com a mensagem da película. Creio que o mesmo irá acontecer com o longa de Benny Safdie. Espectadores frustrados, pela forma agridoce que Marty fecha sua história.
Marty Supreme é um longa que acerta na mensagem que Benny Safdie quer nos mostrar. A ambição pela grandeza Marty é individualismo que é apenas um reflexo do coletivo de uma nação. Que em nome dos seus próprios interesses, causam caos e destruição por onde passam e esperam que todos acreditem nos “sonhos”, e no final saiam vitoriosos de uma batalha puramente egocêntrica.






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