Mambembe: A arte do tempo que improvisa memórias e vidas
- Daniel Victor
- há 3 dias
- 3 min de leitura
Mambembe (2024/2026) de Fabio Meira
Por: Daniel Victor

“O que não pode faltar um filme sobre Circo?”, pergunta Fabio Meira para alguns artistas circenses em sua pesquisa pelo Brasil, para a realização do que seria seu primeiro filme. Isso se o “roteiro da vida real” tivesse seguido o planejado. Pois Mambembe acabou se tornando o terceiro longa na filmografia do diretor goiano. Talvez nenhum elemento combine tanto com o título escolhido e os 15 anos para que a película finalmente ganhasse forma: O Tempo.
Se a história nos mostra pintores e fotógrafos tentaram capturá-lo ou mesmo “esculpi-lo”, como Tarkovski fez com maestria. No longa de Meira a lógica se inverte. O tempo é o artista mambembe que transforma os imprevistos em improviso. Onde os elementos para sua performance, sejam a arte, memórias e vidas, tornando o seu “número”, algo único.
No filme, acompanhamos o diretor e roteirista Fábio Meira, desde a pesquisa visitando circos pelo Brasil, as gravações inacabadas do longa ficcional e o retorno do autor para finalização da obra. Onde testemunhamos o processo criativo, memórias, personagens e vidas, que foram atravessadas e transformadas ao longo dos quinze anos. Em uma película onde documentário e ficção se misturam, como uma performance artística em constante improviso.
Durante a pesquisa nos circos, somos apresentados a três mulheres: Madona Show, Dandara Guerra e Índia Morena. Artistas circenses que participam do longa de ficção de nome “Mambembe”, junto ao ator Murilo Grossi. Os registros, vidas e memórias, são criados e reformulados durante a projeção. Onde Meira atua como narrador/personagem de todo esse processo.
Creio que por mais árduo e desgastante para o realizador teve que lidar com todos esses quinze anos até a conclusão da obra. Mambembe se beneficia justamente pelo tempo. Comparar o que diretor imaginou do que seria o filme, ficção inacabada e registro de todo processo, é o que torna o longa tão único e especial. Pois a ficção e documentário se misturam de forma quase uníssona, remetendo ao cinema de Abbas Kiarostami.
O diretor parte do arco narrativo clássico “A Jornada do Herói” e utiliza-se do tarot como base de criação para seu roteiro. No entanto, a concepção da obra não se dá no campo do imaginário e sim no real. É na interação de Meira com as protagonistas que surgem momentos em que as ideias Madona, Dandara e Índia são aderidas no filme.
O nome Madona remete a uma das cartas do tarot. Dandara em uma de suas interações com o diretor, diz que ela seria a melhor atriz para interpretar sua personagem. Índia é quem possui uma trajetória, na vida real, parecida com o desfecho escrito com sua personagem no roteiro. Essa colaboração das artistas circenses e diretor engrandece o tom experimental e improvisado que estrutura o filme. Já que a estética do longa remete ao Cinema Marginal, na ficção e no documentário.
O personagem do topógrafo (interpretado Murilo Grossi), que seria o protagonista do longa na ficção e ponto que uniria as três personagens femininas, vai ganhando camadas durante o filme. Pois o personagem tem inspiração no pai do diretor e ao confessar que “esse é o personagem que menos compreendo”, dito por Meira, reforça a linha uníssona entre real e imaginação.
Essa liberdade poética e caótica, construída conscientemente pelo diretor, da pesquisa à conclusão, nos dá a sensação de que a “tempestade perfeita”, que só beneficiou o longa. Mesmo que os imprevistos sejam, na realidade, momentos de felicidade e melancolia que cercaram o filme. Esse misto de emoções é que torna essa película tão especial.
Mambembe nos mostra que real e ficção caminham juntas mais do que podemos imaginar. Se na arte podemos “domar o tempo”, na realidade, ele é o artista da vida. A performance termina, o artista agradece. Esse “crítico mambembe” aplaude em meio a lágrimas de felicidade e melancolia no seu rosto.




Comentários