Minha Cobertura do 35° Cine Ceará: Festival Ibero-americano
- Daniel Victor
- 27 de set. de 2025
- 21 min de leitura
Por Daniel Victor.

Olá a todos! É com muito prazer que mais uma vez tenho a oportunidade de cobrir o Cine Ceará: Festival Ibero-americano, que está em sua 35° edição.
Sempre é um prazer cobrir o festival mais importante do meu estado e um dos mais importantes do país.
Gostaria de agradecer a Dégagé Comunicação, que me concedeu o credenciamento para cobrir o festival, ao Cine Ceará e a você leitor.
Mas antes de tudo, irei apresentar o festival e como funciona minha cobertura.
35° Cine Ceará: Festival Ibero-americano
35° Cine Ceará: Festival Ibero-americano, ocorreu dos dias 20 a 26 de setembro de 2025. O festival vem consolidando-se como uma das principais vitrines do audiovisual brasileiro e latino-americano, promovendo encontros, diálogos e intercâmbios que atravessam fronteiras.
Com uma programação que se consolidou ao longo dos anos, o 35º Cine Ceará oferece ao público cearense uma curadoria representativa do ponto de vista geográfico e diversa em termos de gêneros e linguagens. Sua programação reúne três mostras competitivas – Longa-Metragem Ibero-Americano, Curta-Metragem Nacional e Olhar do Ceará, dedicada a produções locais – além de exibições especiais, mostras sociais, debates, cursos e homenagens. Todas as sessões têm acesso gratuito, reafirmando o compromisso do Cine Ceará com a democratização da cultura e a formação de público.
Cinema do Dragão
Do dia 21 a 25 de setembro no Cinema do Dragão. Ocorreu a Mostra Olhar do Ceará (Curta-Metragem/Longa-Metragem), com debate com os realizadores com a Mediação de Lis Paim.
Cineteatro São Luiz
Do dia 20 a 26 de setembro no Cineteatro São Luiz. Ocorreu a Cerimônia de Abertura, Homenagem, Mostra Competitiva Ibero-americana de Longa-metragem, Mostra Competitiva Brasileira de Curta-metragem, Exibições Especiais e Cerimônia de Premiação e Encerramento do Festival.
Hotel Sonata de Iracema
Do dia 21 a 26 de setembro no Hotel Sonata de Iracema. Ocorreu Debates com os Realizadores das Mostras Competitivas Ibero-americana de Longa-metragem e Brasileira de Curta-metragem, com a mediação de Arthur Gadelha.
Praça dos Leões
Nos dias 25 e 26 de setembro na Praça dos Leões. Ocorreu Ações do Coletivo Arruaça: Cinema na Praça.
Curadoria
Bruno Carmelo: Mostra Ibero-americana de Longa-metragem.
Vicente Ferraz: Mostra Ibero-americana de Curta-metragem.
Camila Osório: Mostra Olhar do Ceará.
Minha Cobertura
Minha Cobertura consiste em: Tudo que eu assistir em comentarei. Neste ano, cobri tudo relacionado ao Cineteatro São Luiz. Ou seja: Cerimônia de Abertura, Homenagem, Mostra Competitiva Ibero-americana de Longa-metragem, Mostra Competitiva Brasileira de Curta-metragem, Exibições Especiais e Cerimônia de Premiação e Encerramento do Festival. A qual tive o privilégio de estar presencialmente todos os dias.
Primeiro Dia. 20/09. Sábado-Abertura
No primeiro dia marcou a abertura do 35° Cine Ceará: Festival Ibero-americano.
Vários nomes ilustres participaram da abertura: Margarita Hernández (Diretora de Programação), Custódio Almeida (Reitor da UFC), Rafael Felismino (Secretário Executivo da Cultura do Ceará) e Joelma Gonzaga (Secretária do Audiovisual do Ministério da Cultura).
Além de reforçar a importância do Cinema e Audiovisual. Como gesto político levou o Cineteatro São Luiz a clamarem: Sem Anistia!
Também tivemos a Exibição do Curta-metragem do Projeto Compartilha Animação. Projeto que reunia alunos de escolas públicas que participaram e criaram um curta educativo para ENEL, chamado: Cada um na sua Tomada.

Depois da exibição eles receberam o diploma no palco do Cine Ceará.
Também ocorreu a homenagem à atriz Mariana Ximenes. Que recebeu o Troféu Eusélio Oliveira, como reconhecimento à sua rica atuação na dramaturgia, em especial no cinema.
Filha de Cearense e visivelmente emocionada, ela falou da importância do Cinema da sua vida e disse que o prêmio serve como um impulso para continuar sua jornada artística.

Mostra Ibero-americana de Longa Metragem
Gravidade. Leo Tabosa. Ficção. 90’. Brasil. 2025. 12 anos. Première Mundial.

Sinopse:
Durante uma tempestade solar que ameaça colapsar a gravidade da Terra, quatro mulheres confrontam mistérios enterrados numa mansão à beira do fim. Entre segredos, memórias e rancores, nasce uma nova chance de reordenar o mundo.
Comentário:
Em seu primeiro longa, o diretor Leo Tabosa continua no tema recorrente em sua filmografia: complexidade nas relações familiares.
Em Gravidade, temos uma narrativa de caráter experimental. Diante do fim do mundo, quatro mulheres: Sydia (Clarisse Abujamra), Nina (Hermila Guedes), Lara (Danny Barbosa) e Joana (Marcélia Cartaxo), vivem isoladas em uma mansão e confrontam dilemas sobre o passado, presente e inevitável fim.
Confesso que tema de que “Gravidade vai acabar”, “Fim do Mundo” etc. Não me convenceram tanto, servindo apenas de plano de fundo apenas para “justificar” a narrativa experimental do longa.
O grande mérito do cineasta é construir uma narrativa que cada vez mais abraça o surreal. Elemento esse que pode afastar o espectador, mas para mim, foi o que me deixou intrigado.
Com uma belíssima fotografia Petrus Cariry, o longa vai se aprofundando no surreal. A progressão do fim do mundo se soma com a progressão dos conflitos de todas as personagens, que vivem de forma diferente o fim.
Mas a relação de cada personagem somada a outra, vão revelando mistérios do passado que reverberam no presente. E a experimentação potencializa momentos marcantes.
A influência de Luiz Buñuel, um tanto de Anjo Exterminador (1962) e Discreto Charme da Burguesia (1972). Tanto pela criação de signos, um local que se passa a maior parte da história e da autoconsciência do longa. Outra influência é David Lynch em momentos mais oníricos.
Tabosa aprofunda os conflitos, embarca no surreal e não está a fim dar respostas. Quanto mais imersos no seu mundo, mas potencial o filme ganha. Os conflitos são poderosos e utilizam o universo daquelas mulheres para falar sobre dores, medos, pertencimento e futuro.
Para mim, o longa é satisfatório no que tange os conflitos das personagens, mas quanto ao fim do mundo, poderia ser uma narrativa mais bem construída (Mesmo eu ache que não seja a intenção principal do autor).
Segundo Dia. 21/09, Domingo
Mostra Competitiva Brasileira de Curta-metragem
O segundo dia do festival teve um pequeno atraso devido às manifestações em todo o país. E assim como nos dois dias que estive no festival, eu reitero: Sem Anistia!
Minha mãe é uma vaca. Moara Passoni. Ficção. 15’. Mato Grosso do Sul/ São Paulo. 2024. Livre.

Sinopse:
Deixada aos cuidados de sua tia em um rancho da família, na beira do pantanal brasileiro em chamas, Mia, de 12 anos, anseia pelo carinho da mãe. Mas, nesse mundo natural volátil, com a ameaça iminente de um jaguar mortal consumindo a família, o amor surge de forma inesperada.
Comentário:
O curta é extremamente bem executado. Contém alguns elementos biográficos da diretora.
Com uma excelente fotografia. O curta mostra a personagem Mia, que é mandada por sua Mãe para o Pantanal.
Com o caráter político tanto por parte da mãe da protagonista e tanto por mostrar as consequências das queimadas do Pantanal. A dor da separação de Mia e sua Mãe, o isolamento e não pertencimento da protagonista ao local que agora vive, autodescobertas, são extremamente bem construídas no curta.
Mia sempre pede a Deus que proteja sua mãe, enquanto vê parte da sua família que está no pantanal criticar sua Matriarca por se envolver com a política.
O que leva nossa protagonista a ter uma relação com uma vaca que não produz mais leite. O curta faz relação da mãe e da vaca, como duas figuras “outsiders”, a qual a protagonista tem apreço.
Apesar de bem executado e dirigido. Principalmente a solidão da protagonista, é infelizmente, meio forçada a relação entre a Mãe de com a Vaca, por mais que curta evidencie essa proposta.
Mas em quesitos técnicos e de atuação, o curta é um deleite.
Exibição Especial
Para Vigo me voy! Lírio Ferreira e Karen Harley. Documentário. 99'. Brasil. 2025.

Sinopse:
"Para Vigo me voy" é um documentário que mergulha na obra de Carlos Diegues, cineasta que retratou a história e o espírito do Brasil desde 1961. O longa navega entre seus filmes e a trajetória pessoal do Cacá, intercalando trechos das suas obras com entrevistas feitas ao longo de 60 anos. O filme traz imagens inéditas da última filmagem de 'Deus ainda é brasileiro’, uma sessão de ‘Bye Bye Brasil’ na favela do Vidigal, com a presença do diretor, e um grande encontro do Cacá com artistas que foram seus companheiros de jornada.
Comentário:
O longa é uma grande celebração a vida e obra de Cacá Diegues, que sem dúvida é um dos grandes cineastas da história do nosso país.
Passando por todos os momentos e obras do diretor e contando com parte das últimas filmagens do cineasta em vida. A uma grande celebração e respeito por toda sua trajetória. Contando com entrevistas, bastidores e depoimentos de diversas figuras.
A montagem é ponto alto do longa, conectado não somente às obras do diretor com sua vida privada, mas como de outros autores e filmes também.
Entretanto, por mais bela que seja a celebração é emocionante, às vezes, estrutura do documentário é extremamente didática. O que prejudica no ritmo.
Exibição Especial
Programa Directors’ Factory Ceará Brasil
Antes dos cineastas subirem ao palco. Algumas figuras ilustres falaram da importância do programa e como ele foi construído. Janaina Bernardes (Produtora do Projeto), Bete Jaguaribe (Diretora do Porto Iracema das Artes), Tiago Santana (Diretor-presidente do instituto Mirante), Viana Júnior (Chefe do Gabinete da Secult do Ceará) e Josy Macedo (Representante da Curadoria de Cinema e Audiovisual da Secult Ceará).
Enalteceram a importância do projeto e revelaram as dificuldades, as conquistas e futuro que Cinema e Audiovisual Brasileiro e Cearense que está por vir. E mais uma vez reforçaram: Sem Anistia!
Depois, o palco do Cineteatro São Luiz recebeu boa parte de todas as equipes que falaram do projeto e emocionados foram aplaudidos pelo público.
Todos os curtas tem como foco o protagonismo feminino.
A Fera do Mangue. Wara e Sivan Noam Shimon. Ficção. 14’. Brasil / França. 2025.

Sinopse:
Houve um tempo em que um homem de poderes ilimitados exigia descendentes. Quando uma de suas vítimas libertou a fera dentro de si, uma força vingadora mítica surgiu, galopando sobre as águas do mangue.
Comentário:
Um curta com alegoria muito forte e que além de falar de abuso contra as mulheres, também soma muito bem o comentário político da natureza e sua destruição.
Visualmente incrível. A construção do antagonista (rodeado de roxo/morte e preto/poluição) e a evolução do protagonista em uma fera. E visualmente incrível. Com uma fotografia fantástica e escolha de planos precisos.
O ar místico casa perfeitamente com o tom político do curta
A Vaqueira, a Dançarina e o Porco. Stella Carneiro e Ary Zara. 15’. Ficção. 10’. Brasil / França. 2025.

Sinopse:
Uma cowgirl trans entra no bar onde sua amante, uma showgirl negra, trabalha sob as regras de um porco sanguinário amante de trufas. Mas o que começa como uma fuga por amor se transforma em um faroeste surreal de sangue, irmandade e resiliência.
Comentário:
Um curta fantástico! Uma mistura perfeita de faroeste com tons oníricos. Fotografia que utiliza planos que remetem faroestes (close-ups), uma montagem com jumpcuts que tornam toda a violência estilizada e poderosa, além de sua estrutura em atos. . E mais incrível: sem precisar de diálogos.
A história de amor de cowgirl trans e sua amante e emancipação das mulheres que são tratadas como objetos a serem explorados pelos homens, que aqui são comparados a porcos (som de porco é utilizado). Faz desse curta um grande experimento que acerta em tudo que propõe.
Ponto Cego. Luciana Vieira e Marcel Beltrán. Ficção. 19’. Brasil / França. 2025.

Sinopse:
Marta é uma engenheira responsável pelas câmeras de segurança no porto de Fortaleza, um ambiente onde mulheres silenciadas enfrentam o anonimato e o desprezo. Mas Marta está pronta para se manifestar.
Comentário:
Crítica precisa a como as mulheres são tratadas no ambiente de trabalho e muitas vezes passam por abusos que não são vistos, pois muitas vezes não querem ser enxergados.
Apesar do roteiro ser bem contado e a fotografia utilizar planos abertos para enfatizar os “pontos cegos”, não somente das câmeras mais da sociedade machista. A história é infelizmente previsível e não mostra todo seu potencial, apesar de entender o uso da voz-over e do encerramento.
Como ler o Vento. Bernardo Ale Abinader e Sharon Hakim. Ficção. 14’. Brasil / França. 2025.

Sinopse:
Há vários anos, Cássia, uma curandeira tradicional, vem ensinando pacientemente seus segredos a Marjorie, sua jovem discípula. Agora, chegou o momento de passar adiante o legado.
Comentário:
Um curta que foca no místico e na relação das pessoas mais velhas e novas. Mestre e discípula.
Bem executado e consegue mostrar toda a construção e relação das personagens e suas evoluções perante o destino que os espera.
Emocionante e onde tom místico e perfeitamente alinhado como o poder da ancestralidade e de mestre e discípula, As atuações das atrizes se destacam e deixam muito crível as experimentações do curta e seu lado intimista.
O Programa Directors’ Factory Ceará Brasil, que enfatiza a formação profissional de jovens realizadores em uma perspectiva de internacionalização da produção audiovisual regional, abriu a Quinzena de Cineastas, em Cannes, e agora apresenta, no Cine Ceará.

Terceiro Dia. 22/09. Segunda-Feira
O Terceiro Dia foi marcado com documentários extremamente potentes em suas propostas.
Mostra Competitiva Brasileira de Curta-metragem
Amores na pasajen. Daniele Ellery. Documentário. 18’. Ceará. 2025. Livre.

Sinopse:
Traz narrativas de mulheres brasileiras, cearenses, e da Guiné-Bissau sobre seus relacionamentos afetivos interculturais e inter-raciais. Discutem os diversos sentidos de família, e o amor como uma “ação política” e possibilidade de mudança. Conflitos identitários, raciais, de gênero e trocas culturais são vivenciadas com as travessias afetivas.
Comentário:
O curta é extremamente efetivo em contar nas perspectivas de quatro mulheres suas relações amorosas e questões políticas interculturais e inter-raciais.
Curta político que discute as diferenças, cultura, semelhanças e poder que amor tem de unir e quebrar paradigmas.
Mostra Ibero-americana de Longa Metragem
Do outro lado do pavilhão. Emília Silveira. Documentário. 72’. Brasil. 2025. 12 anos. Première Mundial.

Sinopse:
Érica e Núbia se conhecem na prisão e criam um laço que ultrapassa as grades. Em liberdade condicional, relatam abusos, celas superlotadas e a perda da identidade feminina. Sem apoio jurídico, enfrentam uma rotina cruel com coragem e humor.
Comentário:
Documentário extremamente potente e forte. Onde na perspectiva das duas protagonistas vemos ao mesmo tempo suas vidas e toda a falência do sistema prisional brasileiro, principalmente com mulheres.
Os relatos pessoais de Érica e sua “filha” Núbia (família na prisão), são extremamente chocantes. As falas do longa se passam enquanto as duas estão em liberdade, mas com a sentença de retornarem à prisão é evidenciada.
Inúmeros temas são discutidos apenas nos relatos das protagonistas. A justiça que é extremamente falha, prisão desumana, toda a falta de aparato do estado tanto nas prisões e na ressocialização das protagonistas na sociedade, a disparidade entre a prisão masculina e feminina, questões pessoais, familiares etc.
Os relatos são fortes e chocantes. Vemos vidas que passaram e ainda passam pelo inferno. E só reforça a desigualdade social que mulheres periféricas (principalmente pretas), sofrem em nosso país.
Eco de Luz. Misha Vallejo. Documentário. 78’. Equador. 2024. Livre. Première Brasileira.

Sinopse:
Misha, um fotógrafo documental, submerge na história da sua família, usando a câmera do seu avô para recriar um álbum de lembranças e se conectar com aquele homem que nunca conheceu.
Comentário:
Documentário pessoal do realizador que em busca de entender o passado de sua família e o seu, descobre inúmeras feridas que vão além de sua família, mas da história social do Equador.
As memórias vão guiando o diretor a caminhos inesperados. Sua avó, pai e mãe são protagonistas que ao pouco vão contando ao diretor elementos do seu passado que reverberam no presente do longa.
Com uma belíssima fotografia e estética, o longa é extremamente sensível. Misha (Diretor e protagonista principal), na busca do passado e nos seus relatos e dos familiares, vai percebendo o que sua família passou.
A relação do seu avô, que também era fotografo, é ponto de partida do documentário.
Mas é na ressignificação que a arte proporciona que mora a beleza do longa. As feridas que seus familiares e memórias não podem ser apagadas. Entretanto, o diretor usa as fotografias e ressignifica as dores, além de entender o passado de sua família, o seu próprio. Onde a sensibilidade para memórias tão fortes, possam ser o fim de ciclo doloroso, mas que evidencia o lado humano falho e belo nas pessoas.
Quarto Dia. 23/09. Terça-Feira
Mostra Competitiva Brasileira de Curta-metragem
Réquiem para Moïse. Caio Barretto Briso e Susanna Lira. Documentário. 19’. Rio de Janeiro. 2025. 14 anos.

Sinopse:
A história do menino imigrante que encontra no Brasil sua esperança de futuro e acaba assassinato a golpes de beisebol em frente a uma famosa praia de um dos bairros mais caros da América Latina. O caso escancarou o racismo e humilhação experimentados pelos refugiados de origem africana no Brasil.
Comentário:
Um documentário poderoso e sensível. Diante da morte de Moïse, o curta segue com depoimentos emocionados de várias pessoas: amigos e conhecidos, que estão chocados e perplexos com o crime que ocorreu.
Revolta, medo... várias emoções estão presentes diante ao caso de uma pessoa que teve sua vida tomada. Medo e revolta tomam conta dos personagens, que não querem a perpetuação da violência, mas a paz.
O curta além de pedir justiça, escancarar o racismo em nosso país e grito e das pessoas pretas que sofrem constantemente medo e violência no Brasil.
Uma celebração da vida de Moïse e luta pela justiça por sua morte.
Brincadeira de criança. João Toldi. Ficção. 12’. São Paulo. 2025. 14 anos.

Sinopse:
Sozinhos em casa enquanto os pais saem, quatro primos brincam de "gato mia". A diversão é abruptamente interrompida quando dois deles iniciam uma briga que evolui para circunstâncias sombrias.
Comentário:
Uma crítica ao machismo e misoginia que é ensinada às crianças desde pequenas.
O curta de passa apenas em uma locação (um quarto), de uma brincadeira de criança, um drama nasce, a tensão aumenta gradativamente. Os meninos sentem que podem mandar nas meninas, pois assim eles foram ensinados, mas obviamente que as personagens femininas, principalmente a irmã de um dos garotos, não aceita essa passividade.
A curta toca de inúmeros questionamentos: por que garotos não podem brincar com bonecas? Por que as garotas têm de obedecer aos garotos? Qual o papel da família na perpetuação de preconceitos? Entre outros.
O curta escala até um momento de extrema tensão. O que evidencia que a violência que essas crianças praticam por serem ensinadas que aquilo é o certo, é completamente visível na vida de adolescentes, adultos etc.
Com excelentes atuações, o curta é um retrato poderoso da sociedade machista e patriarcal.
Boi de salto. Tássia Araújo. Ficção. 15’. Piauí. 2025. 12 anos.

Sinopse:
Após fugirem da fazenda de seu Amaro, pai Francisco e mãe Catarina chegam à
Teresina para começar uma nova jornada. Abdias, filho do casal, sonha em dançar de salto alto, no grupo mais tradicional de Bumba-Meu-Boi da sua cidade
Comentário:
O curta com a temática Queer é eficaz na sua história. Evidenciando os preconceitos, o amor gay e resistência de um rapaz que quer ser ele mesmo e dançar da maneira que gosta: de salto em uma apresentação no interior do Piauí.
O curta tem pulos temporais estranhos, principalmente no começo. E tenta criar uma relação meio mística entre o boi o e rapaz que quer dançar de salto.
Apesar de ser político e eficaz na sua mensagem, o roteiro segue caminhos previsíveis. Sendo a última cena muito bela, mas que é uma conclusão que não causa impacto na narrativa.
Fogos de artifício. Andreia Pires. Ficção. 21’. Ceará. 2025. 14 anos.

Sinopse:
Mais um ano acaba e outro começa. Entre o óbvio e o inusitado, a festa de réveillon move sonhos e desfaz regras.
Comentário:
Uma grata surpresa no 35° Cine Ceará. Como a diretora do curta nos falou a subir com a equipe no palco do São Luiz: O curta é uma celebração do agora.
Com uma direção e atuações perfeitas. Passeamos diante de uma festa do fim de ano de 2025. Com inúmeros personagens e conflitos que são fortes, porém com humor que funciona perfeitamente.
O curta em sua maior parte é um plano sequência, que passei pela uma casa em pleno véspera de ano novo. Personagens com sexualidades bem definidas e com conflitos que é perfeito tanto no cômico quanto no trágico.
Várias vezes os personagens quebram a quarta parede para comentar sobre os outros. E essas “fofocas”, fazem o espectador ficar preso na narrativa.
Porém a grande força está nas personagens femininas, gays e lésbicas. Não há nenhum juízo de valor, pois o enfoque está na celebração da vida, apesar dos dramas.
Um dos melhores curtas do festival. Com uma direção criativa, atuações memoráveis e humor muito divertido.
Mostra Ibero-americana de Longa Metragem
Esta Isla. Lorraine Jones e Cristian Carretero. Ficção. 114’. Porto Rico. 2025. 14 anos. Première Brasileira.

Sinopse:
Bebo, um adolescente de uma cidade costeira de Porto Rico, mora com seu irmão mais velho em um complexo habitacional. A pesca é sua principal fonte de sustento, mas a necessidade os leva a se envolverem em negócios ilegais que prometem dinheiro fácil.
Comentário:
O longa melodramático é dividido em duas partes: O envolvimento do Bebo e sua família com a máfia. E fuga do protagonista com sua amada Lola, da máfia que os perseguem.
Apesar de mostrar as desigualdades sociais de Porto Rico, cultura e beleza natural. O longa cai em um drama piegas, com todas as batidas narrativas previsíveis.
As atuações, fotografia e design sonoro são bons. Na segunda metade, o longa conta com um caráter político que apesar do melodrama, é eficaz comparada a previsibilidade da primeira parte.
O longa tem ritmo bastante cadenciado, o que não ajuda, já que o roteiro é previsível demais em uma narrativa muito convencional.
Porém alguns personagens (E o passado de alguns deles), conseguem por vezes ter profundidade. Entretanto, o roteiro é uma narrativa que já foi “contada tantas vezes”, que infelizmente não me empolgou em momento nenhum.
Quinto Dia. 24/09. Quarta-feira
Mostra Competitiva Brasileira de Curta-metragem
O Amor não cabe na sala. Marcelo Matos de Oliveira e Wallace Nogueira. Ficção. 18’. Bahia. 2024.12 anos.

Sinopse:
Cássio e Otto são apaixonados um pelo outro, mas o desafio da perda da visão é também um desafio de permanecerem juntos.
Comentário:
Um curta que parte de uma relação homoafetiva e com pessoas que são deficientes visuais.
O real desafio do drama não mora na deficiência dos protagonistas, mas na aceitação do outro como uma pessoa que tem suas próprias individualidades.
Apesar de ser sensível. A história é bem simples.
Canto. Danilo Daher. Ficção. 21’. Goiás. 2025. Livre.

Sinopse:
Débora tenta conseguir um emprego para pagar os aluguéis atrasados da kitnet onde vive. Enquanto isso, Ryan precisa se esconder.
Comentário:
Um curta onde o drama consegue ir aos poucos se intensificando e sendo muito sensível.
Extremamente bem executado e com excelentes atuações. Muitos elementos estão no que não é dito, mas que pegam o espectador e o emocionam.
Crítica social poderosa e com uma relação de mãe e filho extremamente bela e tocante.
Thayara. Mila Leão. Documentário. 15’. Paraná. 2025. Livre.

Sinopse:
Thayara é uma mulher indígena da etnia Kaingang. Entre apresentações de dança com a família em escolas no contexto do Dia dos Povos Indígenas para complementar a renda, ela reflete sobre identidade e resistência.
Comentário:
Um documentário pessoal e político. Através da narração da Thayara, uma mulher indígena, vemos suas reflexões sobre sua cultura e de si mesmo.
Com uma narração com voz over, vemos os pensamentos da protagonista. O curta utiliza a linguagem da Kaingang, potencializando o tom de resistência do documentário.
O curta é íntimo e sensível e respeitoso com os protagonistas. Sendo um belo retrato dos povos indígenas que moram nas cidades grandes.
Exibição Especial
O Agente Secreto. Kleber Mendonça Filho. Ficção. 158”. Brasil/França/Holanda/Alemanha. 2025.

Sinopse:
O Agente Secreto se passa no Brasil de 1977, onde Marcelo (Wagner Moura), um homem de 40 anos que trabalha como professor especializado em tecnologia, sai da movimentada São Paulo e vai para Recife. Ele tenta fugir do seu passado violento e misterioso, com a intenção de começar uma nova vida. Ali, ele chega na semana do Carnaval, então logo a paz e a calmaria da cidade vai se esvaindo, e com o decorrer do tempo percebe que atraiu para si o caos do qual ele sempre quis fugir. Para piorar a situação, além de Marcelo estar sendo espionado pelo seus vizinhos, vê que a cidade que achou que o acolheria ficou muito longe de ser o seu refúgio.
Comentário:
Um dos longas mais esperados por mim esse ano e que posso dizer: que filmaço!
Em Cannes, recebeu os prêmios de Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Direção no Festival (Kleber Mendonça Filho) e Melhor Filme da Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) e segue colecionando Prêmios no mundo a fora, sendo com justiça, o representante do Brasil ao Oscar de Melhor Longa Internacional.
Na minha opinião, o melhor longa da carreira do diretor. Que faz alusão a toda sua filmografia (principalmente Retrato Fantasmas) e gêneros cinematográficos e filmes, que fizeram de Mendonça Filho o realizador que é.
Há humor, suspense, drama, conspiração, terror, horror etc. É impressionante como o longa perpassa por tantos gêneros é perfeito.
A memória é o ponto crucial na narrativa do filme. Memória pessoal, memória de período histórico, memória pessoal. Algo que o cineasta trabalha em Retrato Fantasmas, e novamente resgata o tema de forma extremamente potente e emocionante.
O diretor consegue “capsular um raio em pote”. Pois o longa é uma recriação perfeita de uma Recife dos anos de 1977. Além de retrato da perversidade da Ditadura Militar no país e com elementos que vão além do longa convencional do gênero.
Em todos os quesitos técnicos e de linguagem cinematográfica o longa é deleite. Perfeito em todos os quesitos. Os zooms característicos do diretor, a montagem com raccords (elementos que se ligam um plano ao outro), são perfeitos com match cuts temporárias e temáticos incríveis. Direção de arte de espantar por tantos detalhes.
As atuações de todos os personagens (até os pouco desenvolvidos e com pouco tempo de tela) são excelentes. Wagner Moura está incrível. Entretanto, a personagens tão carismáticos e figuras nesse longa, em especial uma: Dona Sebastiana (Tânia Maria), que é uma das melhores atuações de 2025.
A morte é um tema central assim como a memória. O roteiro vai revelando sua trama com paciência e com um ritmo perfeito. E extremamente poderoso em seu comentário crítico. O final, eu senti um mix de emoções, sem precisar apelar para um drama exagerado. Eu chorei emocionado por diversos motivos.
Um longa político que retrata um período histórico, uma cidade, uma nação, o carnaval em meio a morte de várias pessoas, um suspense, enfim... um grande filme.
Uma obra-prima. Viva o Cinema Brasileiro. Viva o Cinema Nordestino.
Sexto Dia. 25/09. Quinta-feira
Mostra Competitiva Brasileira de Curta-metragem
Peixe morto. João Fontenele. Ficção. 14’. Ceará. 2025. Livre.

Sinopse:
Em uma estrada de terra, dois amigos caminhoneiros enfrentam um problema mecânico e são surpreendidos pela ajuda de uma mulher que mora ali por perto. Ela indica uma oficina, leva os dois para sua casa e a convivência vai se desenrolado de forma misteriosa.
Comentário:
O diretor do curta-metragem Raposa vencedor da Mostra Olhar do Ceará de 2024. Retorna na competitiva brasileira e mostra todo seu talento.
O conflito é algo crescente, no começo enigmático e depois com caminhos que o espectador não espera, a não ser o final.
Muito está no não dito, com olhares e tensão latente, até o real conflito se estabelecer e imaginarmos o rumo que a história vai tomar.
Com excelentes planos e atuações, o curta não é tão bom quanto o premiado Raposa, mas ainda assim, muito bem dirigido.
Mostra Ibero-americana de Longa Metragem
Ao oeste, em Zapata (Al oeste, en Zapata). David Beltrán i Mari. Documentário. 74’. Cuba/Espanha. 2024. 10 anos. Première Brasileira.

Sinopse:
Landi e Mercedes moram na Ciénaga de Zapata, uma região pantanosa ao sul de Cuba, reserva da biosfera. Para alimentar o filho doente, Landi precisa caçar crocodilos em secreto, deixando sua esposa e filho a sós durante dias, no meio do mal-estar social do país e da pandemia mundial.
Comentário:
O longa documentário extremamente sensível e duro pela temática.
Dividido em duas partes: a primeira vemos Landi, que está no meio a natureza caçando crocodilos. A segunda, um drama familiar, que tem enfoque na esposa e no filho com espectro autista.
Com uma clara referência ao cinema de Béla Tarr, em especial O Cavalo de Turim (2011), com uma fotografia em preto e branco, planos sequência e longas, design sonoro e tom contemplativo. O longa é um estudo de personagens em local um em Cuba muito pobre.
O longa se passa em meio a pandemia da Covid. Enfatiza o tema da solidão nas duas partes do longa.
A primeira metade do filme mostra o homem contra a natureza. O protagonista não fala e apenas escuta um rádio que exalta Cuba. A luta com o crocodilo é longa, mas é um momento tenso e estranhamente belo.
Na segunda metade, o drama familiar. O enfoque é na esposa e no filho e como é difícil a sobrevivência da família. Mas quando Landi retorna, a solidão de sua mulher ainda é o enfoque é bastante poderoso.
O longa contemplativo, onde a direção coloca o espectador como um observador daquela miséria, tanto social e tanto pela solidão dos personagens.
Um cabo solto (Un cabo suelto). Daniel Hendler. Ficção. Cor. 94’. Uruguai/Argentina/Espanha. 2025. Livre. Première Brasileira.

Sinopse:
Fugindo dos seus colegas da polícia, Santiago, um cabo argentino, atravessa a fronteira para buscar refúgio no Uruguai. Sem dinheiro ou proteção, mas com bondade e inteligência, começa a reconstruir a vida com a ajuda dos habitantes locais, e conhece a mulher na qual acredita que poderia encontrar o amor.
Comentário:
Um longa que explora o suspense e cômico.
Com um ex-policial especialista em queijos, vemos o desenrolar de bom suspense e de uma comédia interessante. Nosso protagonista tem que constantemente mentir e está sempre fugindo para escapar de algo que testemunhou na corporação policial em que trabalhava.
Nosso protagonista é tão carismático, que apesar de estar mentindo, sempre estamos torcendo por ele. Uma pena, pois o longa poderia utilizar um personagem não confiável, que está mentindo, mas não é tão bonzinho.
Com belas atuações, um roteiro perspicaz e carismático. O longa é muito eficiente no que propõe.
Sétimo Dia (Encerramento). 26/09. Sexta-feira
O Encerramento
Cerimônia de Premiação:
Vencedores
Mostra Olhar do Ceará:
Troféu Mucuripe e Prêmio da Unifor para Melhor Curta-metragem
Vermelho de Bolinhas de Joedson Kelvin e Renata Fortes
Troféu Mucuripe de Melhor Longa-metragem
Centro Ilusão de Pedro Diógenes
Mostra Competitiva de curta-metragem:
Troféu Samburá:
Melhor Direção: Brincadeira de Criança, de João Toldi
Melhor Curta: Thayara de Mira Leão
Prêmio Canal Brasil de Curtas: Peixe Morto de João Fontenele
obs. Prêmio 5 mil Reais e curta entra na grade do Canal Brasil)
Prêmio da Crítica (ACECCINE/ABRACCINE)
Boi de Salto de Tássia Araújo.
Melhor Roteiro: Boi de Salto de Tássia Araújo
Melhor Direção: Réquiem para Moïse de Caio Barretto Briso e Susanna Lira
Melhor Curta-metragem Brasileiro: Minha Mãe é uma Vaca de Moara Passoni
Mostra Competitiva Ibero-americano longa-metragem:
Troféu Mucuripe
Prêmio da Crítica (ACECCINE/ABRACCINE)
Eco de Luz de Misha Vallejo.
Melhor Direção de Arte: Está Isla para Gerado Veja
Melhor Som: Al Oeste, en Zapata para Jesús Bermúdez e David Beltrán
Melhor Trilha Sonora Original: Esta Isla para Alain Emilie
Melhor Montagem: Eco de Luz para Andrés Cornejo
Melhor Fotografia: Al oeste, en Zapata para David BiM
Melhor Roteiro: Eco de Luz de Misha Vallejo e Mayfe Ortega
Melhor Atuação Coadjuvante: Un Cabo Suelto para Pilar Gamboa
Melhor Atuação: Un Cabo Suelto para Sergio Prina
Melhor Direção: Al Oeste, en Zapata de David BiM
Melhor Filme: Eco de Luz de Misha Vallejo
obs. Prêmio de 40 mil reais.
Exibição Especial
Morte e Vida Madalena. Guto Parente. Ficção. 85’. Brasil. 2025.

Sinopse:
Madalena é uma produtora de cinema tendo que lidar ao mesmo tempo, com a morte recente do pai, sua gravidez de 8 meses e a produção de uma ficção científica B onde tudo parece dar errado.
Comentário:
Do mesmo diretor de Inferninho (um dos meus longas prediletos Cearense), Guto Parente nos dá mais uma nova obra-prima.
Um longa de comédia hilário que dá visibilidade a pessoas Trans e da Comunidade LGBTQA+
O filme é meta narrativo. Pois se trata de fazer o filme, perante a Luto e perto da vida (bebê). Além de ser cômico, traz momentos de drama perfeitamente que casa com o tom da narrativa.
Eu gargalhei (assim como todos da plateia), e me emocionei em diversos momentos.
A protagonista é uma mulher Trans e fazer um papel de Mãe é tão lindo, poético e necessário para abrir barreiras no cinema.
Em uma das tantas piadas do longa, quando um Policial pergunta o nome do bebê e quantos meses e Madalena responde: Fellini e 8 ½ meses, é simplesmente genial. Pois o filme do diretor italiano também é sobre uma produção conturbada e também sobre um longa que é uma ficção científica.
Direção magistral, atuações incríveis. Eu somente tenho elogios ao longa.
Viva o Cinema Cearense. Viva o Cinema Nordestino. Viva o Cinema Brasileiro.
Final da Cobertura
E chegamos ao fim de mais um Cine Ceará. Agradeço demais ao Festival, a Dégagé Comunicação (Em especial a Luana Rodrigues e Sônia Lage), a amigos, meus familiares, a todas as equipes dos curtas e longas do Festival e a você leitor.







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